Em agosto de 1925, um jornal do Rio de Janeiro com apenas vinte e um dias de circulação perdeu seu fundador. Irineu Marinho, jornalista veterano que acabara de lançar O Globo, morreu de infarto três semanas depois da estreia do diário. Deixou para trás uma redação sem comando, dívidas acumuladas e um filho de vinte anos que os profissionais mais experientes da casa consideravam jovem demais para dar ordens a qualquer pessoa.
Esse filho era Roberto Marinho, o homem que décadas mais tarde se tornaria o empresário mais poderoso da mídia brasileira. E a primeira grande decisão da carreira dele foi, curiosamente, não decidir nada.
A decisão de esperar: seis anos aprendendo antes de mandar
Em vez de assumir o comando do jornal na marra, Roberto Marinho entregou a direção a Eurycles de Mattos, jornalista experiente que havia sido braço direito de seu pai. Ele próprio foi trabalhar como repórter e secretário da redação, funções operacionais, longe do gabinete.
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Sem spam. Cancele quando quiser.Foram seis anos aprendendo o negócio por dentro: apuração de notícias, gráfica, venda de anúncios, distribuição. Somente em 1931, quando Mattos morreu, Roberto Marinho assumiu de fato a direção do jornal. Tinha vinte e seis anos e um diário que ainda brigava para sobreviver no Rio de Janeiro, disputando leitores com concorrentes muito maiores e mais capitalizados.
A aposta na paciência deu resultado. A partir dali, ele transformou O Globo em um dos jornais mais lidos do país. Mas o impresso era apenas o começo do projeto.
Do papel para as ondas: rádio e a chegada da televisão
Em 1944, Marinho expandiu o negócio para o rádio com a criação da Rádio Globo. E nos anos cinquenta, quando a televisão chegou ao Brasil pelas mãos de Assis Chateaubriand, o magnata dono dos Diários Associados e fundador da TV Tupi, a primeira emissora do país, Marinho enxergou que o futuro da comunicação passava por aquela tela.
Ele conseguiu a concessão de um canal de televisão no Rio de Janeiro. Faltava, porém, o essencial: dinheiro e conhecimento técnico para operar uma emissora de verdade, em um mercado que exigia investimentos pesados e domínio de uma tecnologia ainda nova no país.
O acordo com a Time-Life: a aposta que quase custou tudo
A solução veio de fora, e quase derrubou o projeto inteiro. Marinho fechou um acordo com o grupo americano Time-Life, dono da revista Time e uma das maiores empresas de mídia do mundo na época. Os americanos entraram com milhões de dólares e assistência técnica para colocar a emissora de pé.
O problema é que a Constituição brasileira proibia a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação. O acordo virou escândalo nacional, foi parar em uma CPI no Congresso, e concorrentes chegaram a pedir a cassação da concessão. Marinho sustentou publicamente que o contrato era de assistência técnica, e não de sociedade, e conseguiu manter a emissora funcionando no meio da tempestade política.
Anos depois, ele comprou a saída dos americanos e ficou com o controle total do negócio. A TV Globo entrou no ar em 26 de abril de 1965, no Rio de Janeiro, e nasceu com um padrão técnico que nenhuma concorrente brasileira possuía. A vantagem construída naquele momento definiria o mercado de televisão no Brasil pelas décadas seguintes.
A sombra do império: a Globo e a ditadura militar
É impossível contar essa história sem o seu lado mais controverso. A Globo cresceu durante a ditadura militar, e cresceu, em parte, porque manteve boa relação com o regime. O jornal O Globo apoiou editorialmente o golpe de 1964, e a emissora conviveu com os governos militares enquanto expandia sua rede de afiliadas pelo país.
Os episódios mais citados dessa relação viraram capítulos da história política brasileira. Em 1984, no auge da campanha das Diretas Já, o Jornal Nacional minimizou um dos maiores comícios já realizados no Brasil. E em 1989, a edição do último debate presidencial entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, exibida no Jornal Nacional, tornou-se um caso clássico de manipulação midiática, estudado até hoje.
A própria empresa reconheceu parte desse passado: em 2013, O Globo publicou um editorial admitindo que o apoio ao golpe de 1964 foi um erro. O método Roberto Marinho combinava genialidade empresarial e essa mancha histórica, e as duas coisas, juntas, explicam o tamanho que a companhia alcançou.
A máquina de audiência: o padrão Globo e o dinheiro do império
Porque o tamanho foi realmente absurdo. Nos anos setenta e oitenta, a Globo se transformou em uma máquina de comunicação como poucas no mundo. O Jornal Nacional, lançado em 1969, foi o primeiro telejornal transmitido ao vivo em rede nacional no Brasil. As novelas se tornaram o produto cultural brasileiro mais exportado da história, vendidas para dezenas de países.
O chamado padrão Globo de qualidade criou uma barreira competitiva que os rivais levaram décadas tentando alcançar. Em determinados horários, mais de sessenta por cento dos televisores ligados no Brasil estavam sintonizados na emissora. Na prática, anunciar na Globo era a única forma de falar com o país inteiro de uma só vez, o que dava à empresa um poder comercial sem paralelo no mercado publicitário.
Roberto Marinho comandou pessoalmente o grupo até idade avançada e morreu em agosto de 2003, aos noventa e oito anos, reconhecido como o homem mais poderoso da mídia brasileira. O legado financeiro segue de pé: o Grupo Globo é até hoje o maior conglomerado de mídia da América Latina, com faturamento anual na casa dos bilhões de reais, dono da TV Globo, do serviço de streaming Globoplay, de canais por assinatura, jornal e rádio. Os três filhos de Roberto Marinho, herdeiros do controle da empresa, aparecem há anos na lista de bilionários da Forbes, a revista americana que ranqueia as maiores fortunas do mundo, e juntos formam uma das famílias mais ricas do Brasil, com patrimônio combinado estimado em dezenas de bilhões de reais.
Tudo isso a partir de um jornal com três semanas de vida que, em 1925, ninguém apostava que sobreviveria ao ano.
O que essa história ensina
A lição de Roberto Marinho não é a que parece à primeira vista. Não se trata de ambição acelerada, e sim do contrário dela. Alguns aprendizados se destacam:
- Paciência antes do poder: Marinho esperou seis anos para assumir o próprio negócio, porque preferiu aprender antes de mandar. Conhecer a operação por dentro deu a ele autoridade real quando chegou a hora de liderar.
- Apostar na tecnologia seguinte antes de precisar dela: ele entrou no rádio quando dominava o jornal, e na televisão quando dominava o rádio. Cada salto foi dado antes que o negócio anterior ficasse obsoleto.
- Aceitar sócios poderosos quando faltam recursos: o acordo com a Time-Life foi arriscado e polêmico, mas trouxe o capital e a técnica que o Brasil não oferecia. E, no momento certo, Marinho recomprou o controle.
- Poder sem contrapeso cobra um preço: a proximidade com a ditadura e os episódios de manipulação editorial mancharam a reputação da empresa e exigiram, décadas depois, um reconhecimento público de erro.
A construção do império Globo é uma aula de visão de longo prazo, com a luz e com a sombra que toda grande história de negócios carrega.
Fontes
- Roteiro do vídeo do canal O Conselho do Futuro sobre Roberto Marinho e a fundação da TV Globo.
- Editorial publicado pelo jornal O Globo em 2013, reconhecendo como erro o apoio editorial ao golpe de 1964.
- Lista de bilionários da revista Forbes, que inclui os herdeiros de Roberto Marinho entre as maiores fortunas do Brasil.