Em abril de 1906, San Francisco ardia em chamas depois de um terremoto que devastou a cidade. Os grandes bancos anunciaram que só voltariam a operar em semanas. Um banqueiro filho de imigrantes italianos fez exatamente o contrário: montou uma tábua sobre dois barris no meio do porto e começou a emprestar dinheiro na base do aperto de mão. Aquele balcão improvisado se transformou no Bank of America, hoje o segundo maior banco dos Estados Unidos, com ativos na casa dos 3 trilhões de dólares. Esta é a história de Amadeo Peter Giannini, o homem que descobriu que o cliente que todo mundo recusa não é risco, é mercado sem concorrência.
Amadeo Peter Giannini, mais conhecido como A.P. Giannini, nasceu na Califórnia, filho de imigrantes italianos. Sua infância foi marcada por uma tragédia: o pai foi assassinado numa briga motivada por uma dívida pequena. Giannini cresceu trabalhando no negócio de frutas e verduras do padrasto e enriqueceu ainda jovem comprando a produção dos agricultores da região. Aos trinta e poucos anos, já tinha dinheiro suficiente para se aposentar. E foi mais ou menos isso que ele fez, até entrar no conselho de um pequeno banco de San Francisco e descobrir algo que o revoltou profundamente.
Naquela época, banco americano funcionava como clube fechado. Atendia o comerciante estabelecido, o industrial, a gente de sobrenome certo. O imigrante italiano que vendia peixe, o pequeno agricultor e o operário não entravam nem pela porta. Quando essas pessoas precisavam de crédito, o único caminho era o agiota, com juros extorsivos. Giannini tentou convencer o banco onde era conselheiro a emprestar para essa parcela da população. Foi ignorado.
Bank of Italy: o banco para quem não podia entrar no banco
Em 1904, Giannini decidiu fundar o próprio banco, num prédio que antes abrigava um bar, no bairro italiano de San Francisco. Batizou a instituição de Bank of Italy. O mecanismo do negócio era simples de descrever e radical de executar: enquanto os concorrentes esperavam o cliente rico aparecer, Giannini ia atrás do cliente pobre.
Ele batia de porta em porta explicando o que era uma conta bancária, porque boa parte daquela gente guardava dinheiro embaixo do colchão. Emprestava valores pequenos, avaliando o caráter da pessoa mais do que a garantia no papel. A aposta era estatística antes mesmo de essa palavra existir no vocabulário do setor: o trabalhador comum, tratado com respeito, paga. E milhares de empréstimos pequenos e pulverizados representam menos risco do que meia dúzia de empréstimos gigantes concentrados.
Cem anos depois, essa é exatamente a tese que fintechs como o Nubank, o banco digital brasileiro fundado em 2013 que se tornou um dos gigantes do setor financeiro no país, usaram para atacar os grandes bancos brasileiros: atender quem o sistema recusa.
O terremoto de 1906 e o balcão de tábuas que mudou tudo
Então veio o dia 18 de abril de 1906. O terremoto e o incêndio que se seguiu destruíram boa parte de San Francisco. Antes que o fogo chegasse ao prédio do banco, Giannini carregou o dinheiro do cofre em carroças de frutas, escondido sob camadas de laranjas para despistar saqueadores, e tirou tudo da cidade.
Enquanto os grandes bancos, com cofres quentes demais para abrir e prédios em ruínas, anunciavam que ficariam fechados por semanas, Giannini voltou dias depois e montou um balcão improvisado na zona do porto. Emprestava para quem quisesse reconstruir casa ou negócio, muitas vezes sem papel algum, apenas no aperto de mão. Ele dizia acreditar que San Francisco renasceria das cinzas, e emprestou apostando nisso.
A história conta que praticamente todos aqueles empréstimos foram pagos. E a cidade inteira ficou sabendo qual banqueiro apareceu quando todos os outros sumiram. Esse capital de reputação valeria mais do que qualquer cofre.
Do banco de agências a Hollywood: o nascimento do Bank of America
Sobre essa reputação, Giannini construiu outra inovação: o banco de agências. Na época, banco americano costumava ser uma casa só, numa cidade só. Ele espalhou agências pela Califórnia inteira, levando o banco até o cliente em vez de esperar o cliente vir até ele. Em 1930, o Bank of Italy virou oficialmente Bank of America.
E Giannini seguiu emprestando para quem os outros consideravam arriscado demais. Financiou a indústria do cinema em Hollywood quando ninguém levava cinema a sério, incluindo a Disney, hoje um dos maiores conglomerados de entretenimento do planeta, na produção de Branca de Neve. Depois, ajudou a financiar a construção da ponte Golden Gate, que se tornaria o cartão-postal de San Francisco.
Quando morreu, em 1949, o Bank of America era o maior banco do mundo. E Giannini, que poderia ter sido um dos homens mais ricos da América, morreu com um patrimônio modesto para o tamanho do que criou. Ele recusava fortuna pessoal de propósito: dizia que dinheiro demais o afastaria das pessoas que o banco existia para servir.
A sombra: quando o banco do pequeno lucrou em cima do pequeno
Mas a história tem seu lado escuro. O Bank of America que existe hoje é resultado de décadas de fusões, e nem sempre honrou o espírito do fundador. Na crise financeira de 2008, o banco comprou a Countrywide, uma das maiores vendedoras de hipotecas podres dos Estados Unidos, e a Merrill Lynch, corretora que estava à beira do colapso.
O banco precisou de socorro bilionário do governo americano e, em 2014, pagou quase 17 bilhões de dólares num dos maiores acordos da história para encerrar acusações de ter vendido hipotecas tóxicas, muitas delas empurradas justamente para famílias de baixa renda. O banco que nasceu para proteger o pequeno acabou, num certo momento, lucrando em cima dele. É o limite do método: cultura de fundador não sobrevive automaticamente a cem anos e a dezenas de fusões.
Hoje, o Bank of America é o segundo maior banco dos Estados Unidos, atrás apenas do JPMorgan, o maior banco americano. São ativos na casa dos 3 trilhões de dólares e valor de mercado na faixa de 300 bilhões, mais do que qualquer banco brasileiro. Tudo isso começou num prédio que era um bar, com um homem batendo de porta em porta no bairro italiano.
O que essa história ensina
A trajetória de Giannini deixa lições que continuam válidas mais de um século depois:
- Cliente rejeitado é mercado sem concorrência. O público que o sistema inteiro recusa não é necessariamente risco. Giannini enxergou isso em 1904, o Nubank enxergou em 2013, e alguém está enxergando agora em algum setor.
- Crise é teste de reputação. Enquanto todos os bancos fecharam em 1906, Giannini apareceu. A cidade nunca esqueceu, e esse capital de confiança sustentou a expansão do banco por décadas.
- Risco pulverizado é risco menor. Milhares de empréstimos pequenos, baseados no caráter das pessoas, se mostraram mais seguros do que poucos empréstimos gigantes concentrados.
- Cultura de fundador não é herança automática. O episódio das hipotecas tóxicas em 2008 mostra que valores precisam ser renovados a cada geração, ou se perdem nas fusões e nos balanços.
Fontes
- Registros históricos e biográficos sobre Amadeo Peter Giannini e a fundação do Bank of Italy (1904).
- Documentação pública sobre o terremoto de San Francisco de 1906 e a atuação de Giannini na reconstrução da cidade.
- Histórico corporativo do Bank of America, incluindo a mudança de nome em 1930 e os financiamentos a Hollywood e à ponte Golden Gate.
- Cobertura jornalística sobre a crise financeira de 2008, as aquisições da Countrywide e da Merrill Lynch e o acordo de quase 17 bilhões de dólares firmado em 2014.