Por 130 anos, os donos do banco mais influente de Wall Street viveram sob uma regra simples e brutal: se o banco quebrasse, eles perdiam a própria fortuna. Em maio de 1999, essa regra deixou de existir. E o comportamento da instituição mudou junto, com consequências que o mundo inteiro sentiria menos de uma década depois.
Essa é a história da Goldman Sachs, hoje um dos maiores bancos de investimento do planeta, avaliado em bolsa em mais de 150 bilhões de dólares. Mas é, acima de tudo, uma história sobre incentivos: o mecanismo invisível que define como as empresas se comportam, muito mais do que qualquer código de ética.
Das notas promissórias à sociedade de sócios
A trajetória começa em 1869, quando Marcus Goldman, um imigrante alemão que havia trabalhado como mascate na Filadélfia, abre um pequeno negócio em Nova York comprando e revendendo notas promissórias de comerciantes. Anos depois, seu genro, Samuel Sachs, entra na sociedade, e nasce o nome que se tornaria sinônimo de alta finança: Goldman Sachs.
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Sem spam. Cancele quando quiser.O detalhe decisivo dessa história, porém, não está na fundação, e sim na estrutura. Durante 130 anos, a Goldman Sachs funcionou como uma partnership, uma sociedade de pessoas. Nesse modelo, os sócios não eram executivos com salário e bônus. O capital do banco era o dinheiro deles. Se um sócio aprovava uma operação arriscada e ela dava errado, o prejuízo saía do próprio bolso.
E havia mais: o sócio não podia simplesmente sacar sua parte e ir embora. O dinheiro ficava preso na firma por anos, às vezes décadas. Tornar-se sócio da Goldman era o topo da carreira em Wall Street, mas significava também amarrar o patrimônio pessoal ao destino do banco.
Ganância de longo prazo: quando a prudência é estrutural
Esse desenho societário criou uma cultura que ficou famosa em uma expressão atribuída a Gus Levy, sócio-sênior da firma nos anos setenta: ganância de longo prazo. A ideia era ser ganancioso, sim, mas com paciência. Aceitar perder dinheiro hoje para manter um cliente por trinta anos. Recusar negócios duvidosos que pagavam bem, porque a reputação valia mais do que qualquer comissão.
Não se tratava de virtude, e sim de estrutura de incentivo: quando o erro custa a sua casa, você pensa duas vezes antes de assinar qualquer operação.
A firma, aliás, conhecia bem o preço do erro. Em 1929, a Goldman lançou um fundo de investimento alavancado, a Goldman Sachs Trading Corporation, às vésperas do crash da bolsa de Nova York. O fundo virou pó, e o nome Goldman se tornou motivo de piada nos Estados Unidos por uma geração inteira.
Quem reconstruiu a reputação foi Sidney Weinberg, um homem que havia entrado na firma como assistente de zelador e subiu até o comando, dedicando décadas a transformar a Goldman no banco de confiança das grandes corporações americanas. Foram necessários trinta anos para limpar o estrago de uma única decisão ruim. Esse trauma virou memória institucional: risco se respeita.
O IPO de 1999: o dia em que o risco trocou de dono
Nos anos noventa, contudo, o modelo começou a apertar. Os concorrentes haviam aberto capital, engolido bancos menores e passaram a operar com montanhas de dinheiro de acionistas. A Goldman, presa ao capital dos próprios sócios, ficava pequena demais para competir.
Depois de anos de debate interno, com sócios veteranos resistindo à mudança, a decisão veio: em maio de 1999, a Goldman Sachs fez seu IPO na bolsa de Nova York, avaliada em cerca de 33 bilhões de dólares. Os sócios ficaram ricos da noite para o dia, com participações que valiam dezenas ou centenas de milhões cada.
No papel, quase nada mudou: mesmo nome, mesmos prédios, mesmas pessoas. Mas o risco tinha trocado de dono. Antes, quem decidia arriscava o próprio dinheiro. Depois do IPO, quem decidia arriscava o dinheiro dos acionistas e ficava com o bônus se a aposta desse certo. Perda limitada, ganho ilimitado. Quando o incentivo muda, o comportamento muda, mesmo que ninguém perceba no momento.
2008, Abacus e 1MDB: a conta chega
Menos de dez anos depois, o mundo viu o resultado. Na crise de 2008, a maior crise financeira desde 1929, a Goldman estava no centro do furacão dos títulos hipotecários. O banco sobreviveu, em parte graças a um aporte de 5 bilhões de dólares de Warren Buffett, o investidor mais famoso do mundo, e à conversão em holding bancária, o que garantiu acesso ao socorro do governo americano.
Um detalhe alimentou teorias que circulam até hoje: o secretário do Tesouro que coordenou o resgate do sistema financeiro, Henry Paulson, era o ex-presidente da Goldman Sachs.
E a sombra não parou aí. Em 2010, o banco pagou 550 milhões de dólares para encerrar uma acusação da SEC, o órgão regulador do mercado de capitais americano, no caso Abacus. A Goldman havia vendido a clientes um pacote de hipotecas montado com a participação de um fundo que apostava contra aquele mesmo pacote, sem informar isso aos compradores.
Uma década depois, veio o escândalo do 1MDB, o fundo soberano da Malásia: bilhões de dólares foram desviados em operações que a Goldman estruturou, e a subsidiária asiática do banco se declarou culpada de corrupção. No total, os acordos com autoridades dos Estados Unidos e da Malásia custaram bilhões de dólares.
É difícil imaginar os sócios de 1970, com a própria fortuna na mesa, assinando qualquer uma dessas operações.
O gigante segue de pé, mas a reputação não voltou
Apesar de tudo, a Goldman Sachs continua no topo. O banco vale em bolsa mais de 150 bilhões de dólares, fatura acima de 50 bilhões por ano e segue liderando os rankings mundiais de fusões e aquisições, o negócio que construiu sua fama.
Lloyd Blankfein, o CEO que atravessou a crise de 2008 no comando, deixou o cargo bilionário. David Solomon, o atual comandante do banco, ganha dezenas de milhões de dólares por ano. A instituição é mais rica do que nunca. A reputação, essa nunca voltou a ser a de antes de 1999.
O que essa história ensina
A lição não é que abrir capital é errado. Muitas empresas precisam desse passo para crescer, e a própria Goldman corria o risco de ficar para trás sem ele. A lição é outra: incentivo não é detalhe, é o sistema operacional de uma empresa.
- Quem decide precisa sentir o risco. Quando quem toma a decisão paga pelos próprios erros, a prudência é automática. Não depende de manual de conduta nem de treinamento de compliance.
- Estruturas moldam comportamentos. As mesmas pessoas, nos mesmos prédios, com o mesmo nome na porta, agem de forma diferente quando o prejuízo passa a ser dos outros.
- Reputação demora a construir e é rápida de perder. Sidney Weinberg levou trinta anos para limpar o estrago de 1929. Os escândalos pós-IPO deixaram marcas que persistem até hoje.
- Antes de julgar uma organização, olhe quem carrega o risco. É ali, e não nos discursos, que está a explicação do comportamento.
Perda limitada e ganho ilimitado é uma combinação que nenhum código de ética consegue segurar por muito tempo. A história da Goldman Sachs é a prova de que a pergunta mais importante sobre qualquer empresa não é o que ela diz que valoriza, e sim quem paga quando as coisas dão errado.
Fontes
- Registros históricos sobre a fundação da Goldman Sachs por Marcus Goldman em 1869 e a entrada de Samuel Sachs na sociedade.
- Documentação pública do IPO da Goldman Sachs na bolsa de Nova York em maio de 1999.
- Acordo de 550 milhões de dólares firmado com a SEC em 2010 no caso Abacus.
- Acordos firmados com autoridades dos Estados Unidos e da Malásia no escândalo do fundo 1MDB, incluindo a declaração de culpa da subsidiária asiática do banco.
- Divulgações públicas sobre o aporte de 5 bilhões de dólares de Warren Buffett em 2008 e a conversão da Goldman em holding bancária.
- Resultados financeiros e valor de mercado divulgados publicamente pela Goldman Sachs.