Em dezembro de 1989, o homem mais poderoso do varejo brasileiro passou seis dias trancado num cubículo debaixo de uma casa, com música tocando no volume máximo para que não ouvisse nada do lado de fora. Foi resgatado na véspera do segundo turno da eleição presidencial que decidiria a disputa entre Collor e Lula. E saiu daquele cativeiro para, anos depois, travar a briga societária mais cara da história do varejo no Brasil, uma guerra que terminaria com ele perdendo a empresa fundada pela própria família, e reagindo de um jeito que poucos executivos no mundo teriam coragem de tentar.
Abilio Diniz era filho de Valentim dos Santos Diniz, um imigrante português que abriu uma doceria em São Paulo, em 1948, batizada de Pão de Açúcar. Foi Abilio quem convenceu o pai a transformar a doceria em supermercado, em 1959, copiando um modelo que havia visto nos Estados Unidos: o autosserviço, com o cliente pegando o produto direto na prateleira, algo que praticamente não existia no Brasil da época.
A aposta deu certo rápido. Nas décadas seguintes, o Pão de Açúcar cresceu até se tornar o maior grupo de varejo do país, com centenas de lojas. E Abilio se consolidou como a face pública desse império, um empresário conhecido pela intensidade, pela centralização e por uma disciplina quase obsessiva.
O sequestro de 1989 e a quase falência dos anos 90
Em 1989, Abilio foi sequestrado em São Paulo por um grupo de militantes de esquerda estrangeiros, a maioria ligada a organizações chilenas, que exigiam um resgate milionário. Ele passou seis dias num compartimento minúsculo e foi libertado numa operação policial, sem pagamento de resgate, um dia antes da votação do segundo turno presidencial.
Abilio contou muitas vezes que aqueles seis dias mudaram sua relação com o corpo, com o medo e com o tempo. Tornou-se obcecado por disciplina física e treinou quase todos os dias até o fim da vida.
O pior momento da empresa, porém, ainda estava por vir. No começo dos anos 90, o Pão de Açúcar quase quebrou: endividamento pesado, inflação descontrolada e uma guerra interna na própria família Diniz, com irmãos disputando o comando. Abilio venceu a disputa, assumiu sozinho, fechou lojas, vendeu ativos e reconstruiu o grupo. E, em 1999, tomou a decisão que definiria os vinte anos seguintes: vendeu uma fatia do negócio para o Casino, um dos maiores grupos de varejo da França, comandado pelo banqueiro Jean-Charles Naouri.
O contrato com o Casino e a guerra societária mais cara do varejo brasileiro
Em 2005, Abilio e Naouri assinaram um acordo que parecia inofensivo no papel: os dois dividiriam o controle do Pão de Açúcar e, a partir de 2012, o Casino teria o direito de assumir o comando. Abilio assinou. E, quando a data foi se aproximando, tentou desfazer o combinado.
Em 2011, ele articulou nos bastidores, com apoio de estruturas ligadas ao BNDES, o banco estatal de fomento, uma fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour, o gigante francês do varejo e rival direto do Casino. Se a operação saísse, nasceria um colosso do varejo mundial, e Abilio seguiria relevante no comando.
Naouri reagiu como quem tinha sido traído pelo próprio sócio, porque, contratualmente, tinha. O Casino bloqueou a operação, denunciou quebra de acordo e levou a briga para arbitragem internacional. Começou ali uma guerra de dois anos, com advogados dos dois lados do Atlântico, troca pública de acusações e um grupo bilionário paralisado no meio do fogo cruzado.
Em setembro de 2013 veio o desfecho: Abilio deixou a presidência do conselho do Pão de Açúcar, a empresa que sua família havia fundado sessenta e cinco anos antes. O Casino ficou com o controle. Pelo critério mais simples, Abilio perdeu a guerra.
A virada no Carrefour e o tropeço na BRF
É aqui que a história ganha seu capítulo mais impressionante. Em vez de se aposentar, Abilio, já com quase oitenta anos, pegou a fortuna da família, organizada no fundo Península, o veículo de investimentos do clã Diniz, e comprou uma participação relevante justamente no Carrefour, a rede que ele havia tentado usar contra o Casino.
Tornou-se conselheiro do Carrefour global, na França, e um dos maiores acionistas individuais do Carrefour Brasil, que abriu capital em 2017 e depois comprou o Grupo BIG, tornando-se o maior varejista de alimentos do país.
Mas nem tudo nessa reta final foi vitória, e é justo registrar. Abilio também assumiu a presidência do conselho da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, e a passagem dele por lá foi um fracasso: a companhia acumulou prejuízos bilionários, perdeu valor de mercado e ainda foi atingida pela operação Carne Fraca, que investigou fraudes sanitárias no setor. Abilio deixou o conselho em 2018 sob fogo cruzado dos demais acionistas. O método Abilio, centralizador e intenso, funcionou no varejo que ele conhecia desde menino, e não funcionou numa indústria que ele não dominava.
O veredito do tempo
Do outro lado da guerra, o tempo também deu sua sentença. O Casino de Naouri afundou em dívidas e, em 2023, passou por uma reestruturação que tirou o banqueiro do controle do próprio grupo. O Pão de Açúcar, sob gestão francesa, encolheu e hoje vale uma fração do que valia.
Enquanto isso, o Carrefour Brasil, a empresa onde Abilio apostou depois da derrota, fatura mais de cem bilhões de reais por ano. Quando morreu, em fevereiro de 2024, aos 87 anos, Abilio Diniz tinha uma fortuna estimada pela Forbes na casa dos bilhões de dólares, figurando entre os homens mais ricos do Brasil. Tudo construído em cima de uma doceria de imigrante português.
O que essa história ensina
A trajetória de Abilio Diniz deixa lições que valem para qualquer negócio, de qualquer tamanho:
- Contrato assinado é futuro contratado. Abilio perdeu a empresa da família porque assinou, em 2005, um acordo apostando que o futuro nunca chegaria. Ele chegou. Cláusulas que parecem distantes e inofensivas no papel podem definir o destino de um império.
- Patrimônio de verdade não é o crachá. Abilio perdeu o cargo, o conselho e a empresa com o sobrenome da família na fachada. Mas manteve o capital, e a capacidade de realocá-lo quando o jogo virou. Perdeu o trono e comprou o reino do vizinho.
- Método vencedor tem contexto. O estilo centralizador e intenso de Abilio funcionou no varejo, que ele conhecia desde menino, e fracassou na BRF, uma indústria que ele não dominava. Competência não se transfere automaticamente entre setores.
- Vitórias societárias podem ser derrotas econômicas. Naouri venceu a arbitragem e ficou com o Pão de Açúcar, que encolheu sob sua gestão, enquanto o próprio Casino afundava em dívidas até tirá-lo do controle. Ganhar a disputa não garante ganhar o jogo.
Fontes
- Forbes, estimativas da fortuna de Abilio Diniz e ranking dos mais ricos do Brasil.
- Cobertura da imprensa de negócios sobre a arbitragem internacional entre Abilio Diniz e o Grupo Casino (2011, 2013).
- Relatos públicos e entrevistas de Abilio Diniz sobre o sequestro de 1989 e a história do Grupo Pão de Açúcar.
- Registros públicos sobre a passagem de Abilio Diniz pelo conselho da BRF (2013, 2018) e a operação Carne Fraca.
- Informações públicas sobre a reestruturação do Grupo Casino (2023) e os resultados do Carrefour Brasil.