Em 1881, um navio afundou no porto de Santos levando ao fundo do mar toda a mercadoria de um imigrante italiano de 27 anos: um carregamento de banha de porco. Cinquenta anos depois, esse mesmo homem, Francisco Matarazzo, comandava o maior império industrial da América Latina, um conglomerado que chegou a reunir mais de duzentas fábricas e cerca de trinta mil funcionários. A trajetória entre o naufrágio e o topo é uma das mais impressionantes da história dos negócios no Brasil. E o que veio depois dela é uma das lições mais duras sobre sucessão empresarial que o país já produziu.
Francisco Matarazzo nasceu em 1854 em Castellabate, uma pequena cidade do sul da Itália. A família tinha algum comércio, mas a região era pobre, e a Itália daquele período expulsava emigrantes aos milhões. Matarazzo escolheu o Brasil, que vivia o boom do café e recebia ondas de imigrantes italianos para trabalhar nas fazendas de São Paulo.
Ele, no entanto, não veio para colher café, veio para vender. E começou da pior forma possível: com o capital literalmente no fundo do mar, depois que o navio que trazia sua carga de banha de porco naufragou na chegada ao porto de Santos.
A lata de banha: a primeira grande decisão de negócios
Sem a mercadoria, Matarazzo se instalou em Sorocaba, no interior paulista, e abriu um pequeno comércio. Foi ali que apareceu a jogada que define o personagem. A banha de porco, produto básico na cozinha brasileira da época, era importada dos Estados Unidos e vendida em barris de madeira, que estragavam o produto e dificultavam o transporte.
Matarazzo passou a produzir banha localmente e a vendê-la em latas fechadas. Parece um detalhe, mas não era: a lata conservava melhor, viajava melhor e custava menos que o produto importado. Ele não inventou a banha, inventou uma forma mais eficiente de entregá-la. E essa lógica, a de atacar um produto importado e fabricá-lo no Brasil por menos, virou o método de toda a sua vida empresarial.
Integração vertical: como um moinho de trigo virou um conglomerado
Com o dinheiro da banha, Matarazzo mudou-se para a capital paulista no fim do século XIX e subiu um degrau de cada vez. Em 1900, inaugurou um grande moinho de trigo, num momento em que quase toda a farinha consumida no Brasil vinha de fora. Deu certo, e então veio a pergunta que organizou o império inteiro: se ele já tinha a farinha, por que comprar de terceiros o saco que a embalava?
Matarazzo montou uma tecelagem para fazer os próprios sacos. Se a tecelagem produzia tecido além do necessário, por que não vender tecido? Se o navio trazia trigo e voltava vazio, por que não trazer outra carga no retorno? Cada negócio abria a porta do seguinte. É o que os livros de administração chamam hoje de integração vertical: controlar todas as etapas da cadeia produtiva, da matéria-prima ao produto final.
Em 1911, ele reuniu tudo sob um nome só: as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM), a holding que se tornaria o maior grupo privado da região.
A Primeira Guerra Mundial e o título de conde
Então veio o empurrão histórico. A Primeira Guerra Mundial, a partir de 1914, cortou as importações europeias, e o Brasil, que comprava quase tudo de fora, precisou produzir internamente. Quem já tinha fábrica instalada faturou como nunca, e Matarazzo tinha dezenas delas.
Em 1917, o rei da Itália lhe concedeu o título de conde, em reconhecimento ao maior empresário italiano fora da Itália. O imigrante que perdera tudo em um naufrágio agora era nobreza.
No auge, o conglomerado reunia mais de duzentas fábricas e empregava algo em torno de trinta mil pessoas, em setores como alimentos, tecidos, sabão, óleo, metalurgia, química, portos, navegação e banco. Dizia-se em São Paulo que era possível nascer, viver e morrer consumindo apenas produtos Matarazzo. Nenhum grupo privado da América Latina chegava perto daquele tamanho.
As sombras do império: a greve de 1917, o protecionismo e a centralização
Essa história, porém, tem sombras, e elas importam. O mesmo 1917 do título de conde foi o ano da maior greve geral da história de São Paulo, que começou justamente nas fábricas têxteis da cidade. Jornadas de dez a doze horas, trabalho infantil e salários baixos eram a regra da indústria paulista da época, e as fábricas do grupo faziam parte desse sistema.
O império também cresceu à sombra de tarifas protecionistas e de boas relações com o poder, o que rendia lucro, mas escondia uma fragilidade: sem a proteção, muitos daqueles negócios não parariam em pé sozinhos.
E havia uma segunda fragilidade, mais profunda: tudo dependia de um homem. Matarazzo centralizava as decisões e tratava o conglomerado como assunto de família.
A queda da IRFM: da maior fortuna do Brasil à falência
Quando morreu, em 1937, Francisco Matarazzo era apontado como o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna que, segundo estimativas de historiadores, equivalia a uma fatia relevante de toda a economia do país, algo na casa das dezenas de bilhões de reais em valores atuais.
O comando passou ao filho, depois à neta, e o império que o fundador levara cinquenta anos para construir foi se desmontando: excesso de negócios sem sinergia, brigas de herdeiros, dívidas e uma indústria brasileira que se modernizava enquanto o grupo envelhecia. Nos anos 1980, a IRFM entrou em concordata; na década seguinte, o que restava dela foi à falência.
É aqui que o desfecho surpreende: do maior império industrial da América Latina, não sobrou nenhuma grande empresa em operação. Sobraram símbolos. O imponente Edifício Matarazzo, no centro de São Paulo, é hoje a sede da prefeitura da maior cidade do hemisfério sul. E Ciccillo Matarazzo, sobrinho do conde, usou a fortuna da família para fundar a Bienal de São Paulo, até hoje o maior evento de arte do país. A fortuna que já foi a maior do Brasil virou, essencialmente, patrimônio histórico e cultural.
O que essa história ensina
A trajetória de Francisco Matarazzo deixa lições que valem para qualquer época:
- Eficiência na entrega pode valer mais que inovação de produto. Matarazzo não inventou a banha de porco, apenas resolveu, com uma lata, os problemas de conservação, transporte e custo do produto importado.
- Substituir importações e integrar a cadeia constrói impérios. Da farinha ao saco, do saco ao tecido, do tecido à navegação: cada negócio financiava e alimentava o seguinte.
- Lucro apoiado em proteção estatal esconde fragilidade. Tarifas protecionistas e boas relações com o poder sustentaram negócios que, sozinhos, não parariam em pé.
- Império construído em torno de um homem morre com ele. Sem sucessão preparada, o conglomerado se desfez em brigas de herdeiros, dívidas e obsolescência. Negócio que não sobrevive ao fundador não é legado, é biografia.
Fontes
- Registros históricos sobre a trajetória de Francisco Matarazzo e das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM).
- Historiografia da industrialização paulista e da greve geral de 1917 em São Paulo.
- Estimativas de historiadores sobre a fortuna de Francisco Matarazzo à época de sua morte, em 1937.