Em outubro de 2008, no auge da pior crise financeira desde 1929, a empresa mais valiosa do mundo por dois dias não foi uma petroleira nem um banco. Foi a Volkswagen, a montadora alemã que hoje fatura mais de trezentos bilhões de euros por ano e disputa com a japonesa Toyota o posto de maior fabricante de veículos do planeta. O motivo desse feito improvável era um plano secreto da Porsche, a fabricante de carros esportivos de luxo, uma empresa quinze vezes menor, para engolir a gigante. O que aconteceu em seguida virou uma das histórias mais impressionantes do mundo dos negócios: uma aposta bilionária, o maior short squeeze registrado até então e uma reviravolta em que a caçadora terminou caçada.
Para entender como se chegou a esse ponto, é preciso voltar ao começo. A Porsche nasceu em 1931 como um escritório de engenharia fundado por Ferdinand Porsche, o mesmo engenheiro que desenhou o Fusca a pedido do governo alemão nos anos trinta. Ou seja, Porsche e Volkswagen são irmãs de berço. A mesma família, os Porsche e os Piëch, herdeiros do fundador, sempre teve um pé nas duas empresas. Ferdinand Piëch, neto do fundador, chegou a comandar a Volkswagen como executivo e transformou a companhia em um dos maiores grupos automotivos do mundo.
Nos anos noventa, porém, a Porsche quase morreu. A empresa fabricava carros esportivos caros, vendia pouco e produzia mal. Foi quando assumiu Wendelin Wiedeking, um executivo de produção que levou engenheiros japoneses da escola da Toyota para dentro da fábrica e cortou custos sem piedade. Deu certo demais. No começo dos anos dois mil, a Porsche tinha se tornado a fabricante de carros mais lucrativa do mundo em margem: cada carro vendido rendia proporcionalmente mais lucro do que qualquer Mercedes ou BMW.
O plano secreto: como uma empresa pequena tenta comprar uma gigante
O sucesso trouxe o problema clássico de todo negócio pequeno e lucrativo: sobrava dinheiro e faltava tamanho. A Porsche vendia perto de cem mil carros por ano. A Volkswagen, milhões. Se um dia a Volkswagen quisesse comprar a Porsche, seria fácil. Wiedeking e a família decidiram inverter a lógica. Em vez de esperar ser comprada, a Porsche compraria a Volkswagen.
Só que uma empresa quinze vezes menor não tem caixa para comprar a maior. A solução foi engenharia financeira. A partir de 2005, a Porsche começou a acumular ações da Volkswagen aos poucos e, principalmente, a montar posições em opções, contratos que davam o direito de comprar ações no futuro a um preço travado. Isso permitia controlar uma fatia enorme da empresa gastando apenas uma fração do valor, com dinheiro emprestado de bancos. É a definição de alavancagem: multiplicar o poder de fogo usando dívida. Enquanto a ação sobe, quem faz isso parece um gênio.
26 de outubro de 2008: o dia do maior short squeeze da história
Naquele dia, a Porsche revelou o tamanho do jogo: tinha cerca de quarenta e dois por cento das ações da Volkswagen e opções sobre mais uns trinta e um por cento. Somando isso à fatia do estado da Baixa Saxônia, que por lei tem participação na montadora, praticamente não sobrava ação livre no mercado.
E aqui entra o detalhe que fez a história explodir. Fundos do mundo inteiro estavam vendidos na ação da Volkswagen, apostando na queda do papel, porque o consideravam caro demais em plena crise. Quando o anúncio saiu, esses fundos precisaram recomprar ações que quase não existiam à venda. Foi o maior short squeeze da história até então. Em dois dias, a ação saltou de perto de duzentos euros para mais de mil, e a Volkswagen virou, brevemente, a empresa mais valiosa do mundo. Fundos perderam bilhões. No papel, a Porsche tinha lucrado uma fortuna com as opções e estava a um passo de dominar a gigante.
A virada: quando a dívida cobra a conta
Só que 2008 não era um ano qualquer. O sistema bancário mundial tinha acabado de travar com a quebra do Lehman Brothers, o banco de investimentos americano cujo colapso detonou a crise global. A Porsche carregava mais de dez bilhões de euros em dívida e precisava renovar esses empréstimos justamente no momento em que banco nenhum queria emprestar. As vendas de carros esportivos despencaram junto com a economia. E a Volkswagen, que a Porsche queria engolir, tinha caixa, escala e o apoio político da Baixa Saxônia.
Em 2009, o jogo virou por completo. Sem conseguir refinanciar a dívida, a Porsche foi obrigada a negociar a própria venda. Wiedeking, o executivo que tinha salvado a empresa quinze anos antes, renunciou em julho de 2009, levando uma indenização de dezenas de milhões de euros. Em 2012, a Volkswagen concluiu a compra de cem por cento da fabricante de carros esportivos. A caçadora terminou caçada.
O final que quase ninguém conta: a família venceu
A história tem uma camada final pouco lembrada. A família não saiu perdendo. A holding familiar, a Porsche SE, ficou com a maioria das ações com direito a voto da Volkswagen. Ou seja, a empresa Porsche foi engolida, mas a família Porsche-Piëch terminou controlando o grupo inteiro, que hoje reúne Volkswagen, Audi, Porsche, Lamborghini, Bentley e outras marcas.
Vale registrar que esse império também teve sua mancha. Em 2015, o grupo Volkswagen foi pego no escândalo do diesel, a fraude nos testes de emissão de poluentes que custou mais de trinta bilhões de euros em multas e acordos, uma das maiores punições corporativas da história.
A Porsche, por sua vez, voltou à bolsa em 2022, em uma das maiores aberturas de capital da história da Europa, avaliada em torno de setenta e cinco bilhões de euros. E a família segue no topo, entre as mais ricas da Alemanha.
O que essa história ensina
A lição está na mecânica, não no final feliz da família. Alguns pontos merecem ficar gravados:
- Alavancagem não muda a qualidade da tese, só aumenta a aposta. A estratégia da Porsche estava certa, tanto que a família terminou no controle do grupo. Mas a empresa que executou o plano não sobreviveu a ele.
- Dívida não perdoa timing. O plano encontrou o pior momento possível, a maior crise de crédito em quase oitenta anos, e não houve margem para esperar a tempestade passar.
- Quem depende de crédito não decide o próprio destino. Quando uma posição é sustentada por empréstimos, quem dá a palavra final é o banco, geralmente no pior dia possível.
- Escala e caixa importam. No confronto final, a Volkswagen venceu não por ser mais esperta, mas por ter dinheiro em caixa, volume de vendas e apoio político quando o crédito secou.
Fontes
Este artigo é baseado em fatos amplamente documentados sobre o caso Porsche e Volkswagen, incluindo comunicados públicos das duas empresas e da holding Porsche SE, registros do anúncio de 26 de outubro de 2008 e a cobertura da imprensa financeira internacional sobre o short squeeze de 2008, a fusão concluída em 2012, o escândalo do diesel de 2015 e a abertura de capital da Porsche em 2022.