Olhe o seu contracheque. Tem um valor bruto que você nunca viu na conta e um líquido, que é o que chega. Você já se acostumou com o líquido. O homem que passou a vida defendendo que o governo deveria ser menor ajudou a desenhar esse mecanismo.
Em 1943, no meio da guerra, o Tesouro americano precisava de dinheiro rápido e constante. Um economista de 30 anos trabalhava na divisão de pesquisa tributária e participou do desenho da retenção do imposto de renda na fonte. Em vez de o cidadão pagar tudo de uma vez no ano seguinte, o empregador passou a descontar todo mês, antes de o salário chegar à mão. O nome dele era Milton Friedman.
Cinquenta e dois anos depois, numa entrevista à revista Reason, ele disse que não pedia desculpas por aquilo, mas que realmente queria que não tivesse sido necessário, e que gostaria de ver a retenção abolida. E completou que, na época, quase ninguém prestava atenção às consequências do pós-guerra de qualquer coisa que se fizesse.
Quem era
Nasceu no Brooklyn em 1912, filho de imigrantes judeus vindos de Beregszász, cidade que hoje fica na Ucrânia e na época pertencia à Hungria. A família mudou para Rahway, em Nova Jersey, e vivia de uma pequena loja de secos e molhados. O pai morreu quando ele ainda estava no colégio. Terminou o ensino médio em 1928, ganhou bolsa para Rutgers, formou-se em 1932 e ganhou outra bolsa para o mestrado em Chicago.
A ideia que mais serve para a sua vida
Em 1957 ele publicou A Theory of the Consumption Function. A pergunta era simples: o que decide quanto uma pessoa gasta? A resposta óbvia seria a renda do mês. Friedman disse que não. As pessoas gastam pela renda que consideram permanente, aquela que acreditam que vai continuar entrando.
Duas pessoas ganham o mesmo valor neste mês. Uma é assalariada com carteira assinada; a outra é autônoma e teve um mês excepcional. Elas gastam de formas diferentes, porque uma acha que aquilo continua e a outra sabe que não. Segundo a estimativa dele, de um ganho que não se repete cerca de um terço vira consumo no primeiro ano. O número é discutido por trabalhos posteriores; a direção não.
Três situações práticas
O dinheiro que entra uma vez só. O décimo terceiro, o bônus, a restituição ou a venda fora da curva viram uma parcela nova: um carro melhor, uma escola mais cara, uma assinatura a mais. A parcela é permanente. O bônus não era. O teste é uma pergunta: esse dinheiro entra de novo nos próximos doze meses sem eu fazer nada diferente? Se a resposta é não, ele não vira despesa fixa. Vira dívida quitada, reserva, ferramenta, curso ou estoque.
Quem tem empresa. Chegou um contrato grande e pontual, daqueles que resolvem o trimestre. A tentação é transformar aquilo em folha e aluguel. Mas folha e aluguel são permanentes, e o contrato não era. Muita empresa não quebra por falta de faturamento; quebra porque converteu faturamento eventual em custo eterno.
A mesma mecânica a seu favor. A retenção funciona para quem arrecada porque transforma o imposto em algo que você nunca teve na mão. Dá para usar isso na direção contrária: quando o aumento vier, suba a transferência automática para a reserva no mesmo mês, antes de se acostumar com o valor novo.
A parte que costuma sumir do resumo
Friedman ganhou o Nobel de Economia em 1976 e virou figura pública com a série Free to Choose, em 1980. Em março de 1975, esteve seis dias no Chile, deu seminários e palestras e teve um encontro de uma hora com Augusto Pinochet, que havia tomado o poder num golpe menos de dois anos antes. A inflação chilena passava de 300% ao ano. Ele defendeu um tratamento de choque e, um mês depois, enviou uma proposta de oito pontos. Nunca trabalhou para o governo chileno nem recebeu por aquilo. Mas o país estava sob uma ditadura.
O colunista Anthony Lewis, do New York Times, fez a pergunta que ele ouviu o resto da vida: se a teoria econômica de Chicago só podia ser aplicada ao preço da repressão, seus autores deveriam sentir alguma responsabilidade? A cerimônia do Nobel, no ano seguinte, teve protestos. A defesa dele foi sempre a mesma: ideias econômicas não têm dono político. A crítica também: conselho técnico entregue a um regime sem oposição não é só técnico.
Duas coisas para levar
Antes de assumir qualquer parcela, pergunte se o dinheiro que a paga vai entrar de novo nos próximos doze meses sem você fazer nada diferente. Dinheiro que acontece uma vez só compra coisa que acontece uma vez só.
E toda decisão tomada como temporária pode ficar permanente. Ele ajudou a criar um desconto para durar uma guerra. Está no seu contracheque até hoje.
Fontes: entrevista de Milton Friedman à revista Reason (1995) e reportagem da Reason (2016) sobre a retenção na fonte; Britannica, verbete sobre a hipótese da renda permanente; Leonidas Montes, estudo sobre as duas visitas de Friedman ao Chile (2015); ProMarket (2021). Citações em tradução livre.