Em fevereiro de 1513, um funcionário público de quarenta e três anos foi suspenso pelos braços amarrados às costas, seis vezes, no porão de uma prisão de Florença. Nove meses depois, esse mesmo homem terminava de escrever um manual de poder e o dedicava à família que havia mandado torturá-lo. O nome dele era Niccolò Machiavelli, o Nicolau Maquiavel que a língua portuguesa transformou em adjetivo.
A história costuma apresentá-lo como um manipulador frio, teórico da crueldade. A biografia diz outra coisa. Maquiavel era um servidor de carreira endividado, desempregado no momento em que escreveu sua obra mais famosa, e que fracassou justamente no objetivo prático que a motivou: voltar a trabalhar.
Em 19 de junho de 1498, aos vinte e nove anos, Maquiavel foi eleito segundo chanceler da República de Florença, a cidade-estado que era então um dos centros financeiros e culturais mais ricos da Europa. Chegou ao cargo sem experiência de chancelaria e sem carreira de notário, o caminho tradicional para o posto. Ficou quatorze anos e quatro meses no serviço público, cuidando de correspondência diplomática, missões no exterior e, mais tarde, de assuntos de defesa.
Não era um filósofo de gabinete. Era o profissional que viajava, negociava e escrevia relatórios. E que pagava a conta do próprio bolso. Em missão, escreveu à Signoria, o governo florentino, dizendo que com três criados e três animais não conseguia viver de promessas e que já havia contraído setenta ducados de dívida. Vale guardar a imagem: o homem lembrado como estrategista implacável era um funcionário atrás de reembolso.
A escola de Cesare Borgia: descrever não é aprovar
Em 1502, Florença o enviou para acompanhar Cesare Borgia, filho do papa Alexandre VI e o príncipe mais temido da Itália, que construía um Estado próprio na região central do país usando o dinheiro e a autoridade do pai. Maquiavel passou meses ao lado dele, escrevendo cartas de Imola, de Cesena e de Senigallia.
Duas cenas ficaram. Em 26 de dezembro de 1502, os moradores de Cesena acordaram e encontraram na praça pública o corpo de Remirro de Orco, o governador que Borgia havia nomeado para pacificar a região com dureza, cortado em duas partes, o corpo de um lado e a cabeça do outro. Maquiavel estava na cidade. Cinco dias depois, Borgia atraiu seus próprios capitães rebeldes a Senigallia fingindo reconciliação e mandou executá-los. Maquiavel também estava lá, como representante oficial de Florença.
Ele não aplaudiu. Ele anotou. E é dessa distinção que nasce a primeira lição da história, a mesma que destruiu sua reputação por quatro séculos: descrever o mundo como ele é não é o mesmo que aprovar o mundo como ele é. Maquiavel registrou o que via sem maquiagem moral e, por isso, o sobrenome dele virou insulto. Quem entrega diagnóstico cru, numa reunião de resultados, num relatório sobre o time ou numa avaliação de sócio, precisa dizer com todas as letras: isto é o que está acontecendo, não é o que eu recomendo. Sem essa frase, quem descreve é lido como cúmplice.
A milícia de Florença e o desastre de Prato
O grande projeto da vida dele não foi um livro, foi uma reforma militar. Em 6 de dezembro de 1506, o Conselho Maior de Florença aprovou uma provisão redigida por Maquiavel criando os Nove oficiais da ordenança, um exército formado por cidadãos florentinos em lugar dos mercenários alugados que dominavam a guerra italiana. Em 1509, a cidade de Pisa se rendeu, e a milícia estava lá.
Em 29 de agosto de 1512, o exército espanhol atacou Prato. A milícia foi esmagada. O saque matou milhares de civis, com estimativas que variam de dois a seis mil pessoas numa cidade de doze mil habitantes. O embaixador de Ferrara escreveu que os espanhóis fizeram tal massacre que todas as ruas, casas e igrejas estavam cheias de mortos. Três dias depois, os Medici, a poderosa família de banqueiros que havia governado Florença por décadas e fora expulsa em 1494, estavam de volta ao poder.
Aqui aparece a sombra que não pode ser omitida. Maquiavel não reagiu como mártir. Tentou se vender aos vencedores num memorando em que renegou tudo pelo que havia trabalhado, desdenhando do governo que servira e da própria milícia destruída. Não funcionou. Em 7 de novembro foi demitido. Em 10 de novembro, condenado a um ano de confinamento. Em 17, proibido de entrar no palácio do governo.
Em fevereiro de 1513, seu nome apareceu numa lista apreendida com dois conspiradores republicanos. Os historiadores acreditam que ele não participou da conjura. A ordem de captura foi pregoada em cinquenta pontos da cidade, e ele se apresentou sozinho. No Bargello, levou seis tratos de corda, o strappado, tortura que suspende o preso pelos braços amarrados atrás das costas e desloca os ombros. Não confessou nada. Da cela, mandou sonetos ao Medici mais jovem descrevendo os ferros na perna, os piolhos e o fedor. Dois conjurados foram executados. Dois amigos dele pegaram dois anos de fortaleza.
O Príncipe era um currículo
Em 11 de março de 1513, Giovanni de Medici foi eleito papa Leão X. Florença festejou e soltou presos. Maquiavel saiu e foi para a fazenda da família, a cerca de dez quilômetros da cidade. Em 10 de dezembro do mesmo ano, escreveu ao amigo e diplomata Francesco Vettori que se levantava de manhã com o sol e ia para um bosque seu onde mandava fazer lenha, e que à noite entrava no escritório e havia composto “um opúsculo, De Principatibus”. Era O Príncipe, cujo título original em latim significa Dos Principados. No mesmo pacote de cartas, ele diz o que queria: que aqueles senhores Medici começassem a se servir dele, mesmo que começassem mandando ele rolar uma pedra.
Duas ideias centrais do livro têm endereço claro. No capítulo dezessete, Maquiavel escreve que podem coexistir o ser temido e o não ser odiado, e desenha a fronteira ao afirmar que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. Traduzindo para a gestão de hoje: mexer em processo, meta e rotina é uma coisa. Mexer em salário, bônus e na vida financeira de alguém exige preparação absurda. É exatamente nessa linha que um chefe temido vira um chefe odiado. E, se o corte for inevitável, que seja feito de uma vez e com justificativa pública clara. Benefício se distribui aos poucos.
A segunda ideia é sobre Borgia, que aparece no livro como caso de estudo e como fracasso. Ele fez tudo o que um homem hábil deveria fazer, escreve Maquiavel, e ainda assim perdeu o Estado quando o pai morreu, porque havia ganhado tudo pelas armas e pela fortuna de outro. Quem chega ao poder por sorte não sabe mantê-lo, porque não construiu estrutura própria. Cliente único, chefe padrinho, contrato público, algoritmo de plataforma: são todos papa Alexandre VI. Estrutura se constrói antes de precisar dela.
Há ainda a advertência mais cara. Sobre Borgia, Maquiavel escreve que quem acredita que favores novos fazem os grandes esquecerem ofensas velhas se engana, e que foi nisso que o duque errou, e essa foi a causa da sua ruína final. O erro que derruba não é o do dia da queda. É o que estava sendo preparado enquanto tudo ia bem.
O fracasso profissional e o sucesso póstumo
Maquiavel nunca recuperou um cargo de decisão. Provavelmente Lorenzo de Medici sequer leu o livro, já que não existe evidência de que o tenha recebido. Os Medici lhe deram tarefas menores: historiador oficial com salário de cinquenta e sete florins de ouro por ano, depois cem; cento e vinte ducados do papa por um livro de história; e, em 1526, o cargo de chanceler dos Procuradores das Muralhas, cuidando de fortificações. Em 1527, a república voltou. Ele pediu um posto e foi recusado, por ser associado aos Medici. Morreu em 21 de junho daquele ano.
O Príncipe foi impresso em 1532, cinco anos após sua morte, com privilégio concedido por outro papa Medici. Em 1559, a Igreja proibiu a obra completa. Não adiantou. O livro se tornou o texto sobre poder mais lido da história, presença obrigatória em escolas de governo, direito e administração no mundo inteiro, quinhentos anos depois, escrito por um desempregado que não conseguiu com ele o emprego que queria.
O que essa história ensina
- Diagnóstico não é endosso. Quem relata a realidade sem explicitar que está apenas relatando será confundido com quem a defende.
- Existe fronteira entre ser temido e ser odiado. Processo e rotina se mudam com relativa facilidade. Patrimônio e renda das pessoas exigem preparo, justificativa pública e execução de uma vez só.
- Poder emprestado não se sustenta. Quem depende de um único cliente, padrinho, contrato ou plataforma vive à sombra de um papa Alexandre VI que um dia morre.
- Quatorze anos de reputação não se convertem em passe livre no lado oposto. Maquiavel tentou e terminou sem os dois lados.
- A conta vem depois. O poder não se perde no dia em que se perde, e sim nas contas deixadas abertas no período em que tudo ia bem.
Maquiavel não vendeu crueldade. Escreveu num país invadido, tentando entender como um Estado sobrevive sem ser engolido. O manual que nasceu de uma tentativa fracassada de recolocação profissional continua sendo lido porque descreve, sem consolo, o funcionamento real das organizações humanas.
Fontes
- Niccolò Machiavelli, O Príncipe (De Principatibus), com destaque para os capítulos sobre principados conquistados com armas alheias e sobre ser temido ou amado.
- Carta de Maquiavel a Francesco Vettori, 10 de dezembro de 1513, com o relato da rotina no campo e do trabalho no opúsculo.
- Despachos e cartas diplomáticas de Maquiavel escritas de Imola, Cesena e Senigallia durante a missão junto a Cesare Borgia (1502).
- Registros da chancelaria da República de Florença: eleição de 1498, provisão da ordenança de 6 de dezembro de 1506, demissão e condenação de novembro de 1512.
- Relato do embaixador de Ferrara sobre o saque de Prato, agosto de 1512.