Em novembro de 2008, o sistema financeiro global vivia seu momento mais dramático em décadas. Bancos centenários desapareciam nos Estados Unidos, o crédito havia congelado e ninguém emprestava para ninguém. Foi exatamente nesse mês, com o mundo em queda livre, que dois bancos brasileiros anunciaram a maior fusão da história do país. O nascimento do Itaú Unibanco, hoje o maior banco privado da América Latina, com valor de mercado na casa das centenas de bilhões de reais, não foi um lance de sorte nem um ato de desespero. Foi o capítulo final de um método construído ao longo de sessenta anos por um engenheiro paulista que enxergava as crises de um jeito diferente de todo mundo.
O Itaú nasceu em 1943, em São Paulo, com o nome de Banco Central de Crédito. Seu fundador foi Alfredo Egydio de Souza Aranha, empresário paulista de família tradicional, e naquele momento a instituição era apenas um banco pequeno, um entre dezenas no país.
Quem mudou essa trajetória foi o sobrinho do fundador, Olavo Setubal, engenheiro formado na Politécnica da USP que assumiu o comando nos anos sessenta e que, mais tarde, ainda seria prefeito de São Paulo e ministro das Relações Exteriores. Setubal tinha uma convicção pouco comum para a época: banco não cresce abrindo agência por agência. Banco cresce comprando outros bancos. E o melhor momento para comprar é quando o vendedor está desesperado.
Esse método tinha duas engrenagens. A primeira era a disciplina de caixa. O Itaú era conhecido no mercado como um banco conservador, quase chato, que carregava capital acima do necessário e evitava aventuras. Nos anos bons, isso parecia excesso de cautela e deixava dinheiro na mesa. A segunda engrenagem era a paciência de predador. O caixa gordo existia para um único propósito: esperar a crise dos outros. Quando o vendedor precisa vender e quase ninguém pode comprar, o preço é outro.
Aquisições em série: o método em ação
Nos anos sessenta e setenta, o sistema bancário brasileiro passou por uma onda de consolidação, e o Itaú foi um dos compradores mais agressivos. A fusão com o Banco Itaú de Minas Gerais deu o nome que a instituição carrega até hoje. Em 1974, veio o caso que definiu o estilo da casa: o Banco União Comercial, um dos grandes do país, entrou em dificuldade séria. Enquanto o mercado fugia do problema, o Itaú absorveu a operação e, de uma tacada, ganhou uma escala que levaria uma década para construir organicamente.
Nos anos noventa, o Plano Real acabou com a inflação alta, e bancos que viviam do dinheiro que a inflação corroía nas contas dos clientes quebraram em série. Os estados brasileiros, endividados, foram obrigados a privatizar seus bancos estaduais. E lá estava o Itaú, com caixa, comprando:
- Banerj, o banco do estado do Rio de Janeiro, em 1997;
- Bemge, o banco estadual de Minas Gerais, em 1998;
- Banestado, o banco do Paraná, em 2000;
- BEG, o banco de Goiás, em 2001.
Depois vieram o BBA, que se transformou no braço de atacado Itaú BBA, e a operação brasileira do BankBoston, adquirida em 2006. Em cada ciclo de aperto da economia, o Itaú saía maior do que havia entrado.
A crise de 2008 e a maior fusão da história do Brasil
Em quinze de setembro de 2008, o Lehman Brothers, banco de investimento americano com mais de cento e cinquenta anos de história, quebrou e detonou a pior crise financeira desde 1929. O crédito mundial congelou da noite para o dia.
No Brasil, o Unibanco, então o terceiro maior banco privado do país, controlado pela família Moreira Salles desde uma casa bancária aberta em Poços de Caldas em 1924, sentiu a pressão. A instituição não estava quebrada, longe disso. Mas Pedro Moreira Salles, que comandava o grupo, entendeu que na nova era o tamanho seria questão de sobrevivência.
As conversas entre as duas famílias, que já se conheciam havia décadas, aceleraram no auge do pânico. Em três de novembro de 2008, Roberto Setubal, filho de Olavo e então presidente do Itaú, e Pedro Moreira Salles anunciaram a fusão. Nascia o Itaú Unibanco, na época o maior banco do Hemisfério Sul, com operação em mais de dez países.
Olavo Setubal não viu o anúncio. Ele havia morrido poucos meses antes, em 2008. Mas a jogada final foi a assinatura perfeita do método que ele criou: enquanto os bancos do mundo inteiro encolhiam para sobreviver, o banco brasileiro que passou décadas guardando caixa usou a crise para dobrar de tamanho.
O lado controverso da consolidação bancária
Nem tudo nessa história é motivo de celebração. Anos depois da fusão, a Operação Zelotes, conduzida pelo Ministério Público Federal, investigou suspeitas de irregularidades em julgamentos tributários ligados à operação, num caso que o banco sempre negou e no qual se defendeu.
Além disso, o Itaú convive com uma crítica permanente, compartilhada pelos demais grandes bancos brasileiros: opera num dos mercados mais concentrados do mundo, com alguns dos juros e tarifas mais altos do planeta. Parte da rentabilidade extraordinária vem de eficiência de gestão, mas parte vem de um setor onde meia dúzia de players domina quase tudo. A mesma consolidação que fez o Itaú se tornar gigante ajudou a construir esse cenário.
O tamanho do desfecho, de todo modo, impressiona. O Itaú Unibanco é hoje o maior banco privado da América Latina, com lucro anual que passa dos quarenta bilhões de reais, um dos maiores de qualquer empresa brasileira, em qualquer setor. As famílias fundadoras, Setubal, Villela e Moreira Salles, figuram de forma consistente entre as mais ricas do Brasil, com fortunas somadas de dezenas de bilhões de reais, boa parte delas ainda investida no próprio banco.
O que essa história ensina
A trajetória do Itaú é uma aula de gestão financeira em estado puro. A lição central é que caixa não é dinheiro parado, é uma opção de compra sobre o desespero alheio. Nos anos bons, a disciplina de manter capital acima do necessário parece covardia, um custo de oportunidade que os concorrentes mais ousados não pagam. Na crise, essa mesma disciplina se converte em poder.
Quem tem liquidez quando ninguém mais tem não apenas participa do mercado: define o mercado. Foi assim com o Banco União Comercial em 1974, com os bancos estaduais nos anos noventa e, no lance mais ousado de todos, com a fusão anunciada no auge do pânico de 2008. Para empresas de qualquer setor, e até para as finanças pessoais, a mensagem é a mesma: a paciência de acumular reservas nos tempos de bonança é o que permite agir com força quando todos os outros só conseguem recuar.
Fontes
- Histórico institucional do Itaú Unibanco e comunicados oficiais sobre a fusão de novembro de 2008.
- Cobertura da imprensa econômica brasileira sobre as aquisições do Itaú (Banerj, Bemge, Banestado, BEG, BBA e BankBoston).
- Registros públicos da Operação Zelotes, do Ministério Público Federal.
- Divulgações de resultados do Itaú Unibanco e rankings de fortunas de famílias empresariais brasileiras.