Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o presidente do Brasil pegou um revólver Colt calibre 32, apontou para o próprio peito e atirou. O tiro, disparado por volta das oito e meia da manhã no quarto do Palácio do Catete, não encerrou a história de Getúlio Vargas. Reescreveu. E, segundo historiadores, adiou em dez anos o golpe militar que viria derrubar seus herdeiros políticos. Poucas decisões na história brasileira ilustram tão bem uma lição que vale para qualquer líder: quem controla a última cena controla a narrativa.
Getúlio Vargas nasceu em 1882 em São Borja, no Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina, filho de um herói da Guerra do Paraguai. Um detalhe revelador do personagem: ele falsificou a própria idade, alterando documentos para constar 1883. A fraude só foi descoberta décadas depois, quando os registros de batismo foram checados para as comemorações do centenário. O homem que dominaria a política brasileira por um quarto de século começou mentindo até sobre quando nasceu.
Formado em Direito em Porto Alegre, Vargas subiu na política gaúcha e disputou a presidência em 1930. E perdeu. Júlio Prestes, o candidato governista vitorioso, teve mais de um milhão de votos contra cerca de setecentos e quarenta mil de Vargas. Numa democracia estável, a história acabaria ali. Mas em julho daquele ano João Pessoa, vice na chapa de Getúlio, foi assassinado numa confeitaria no Recife. O crime tinha motivação pessoal, mas virou combustível político. Em outubro, um movimento armado partiu do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e da Paraíba. No dia 24, os militares depuseram o presidente Washington Luís, então chefe do Executivo. No dia 3 de novembro, Vargas entrou no Palácio do Catete como chefe do Governo Provisório. Havia perdido nas urnas e tomado o poder pela força.
Estado Novo: a ditadura sustentada por uma fraude
Vargas não largou mais o poder. Em novembro de 1937, com a eleição seguinte se aproximando, fechou o Congresso e outorgou uma Constituição copiada da Polônia autoritária, apelidada de Polaca. A justificativa oficial foi o Plano Cohen, um suposto plano comunista para tomar o país. Era fraude, forjada pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo militar que, em 1964, sairia de Juiz de Fora com tropas para derrubar o presidente João Goulart. E Vargas sabia que era fraude.
O Estado Novo foi uma ditadura de verdade, e isso precisa ser dito sem suavizações. Houve prisão política, tortura e censura sistemática através do DIP, o departamento que controlava jornais, rádio e cinema, além de fabricar culto à personalidade do líder. Em 1936, Vargas entregou à Gestapo Olga Benário, judia alemã, grávida, companheira do líder comunista Luís Carlos Prestes. Ela morreu numa câmara de gás nazista em 1942. Uma circular secreta de 1937 ainda proibia vistos a judeus que fugiam de Hitler. Não há como contar essa história como se fosse apenas a de um pai dos pobres.
Salário mínimo, CLT e CSN: proteção e controle no mesmo pacote
Ao mesmo tempo, foi nesse período que Vargas construiu o legado econômico que sobrevive até hoje. Em 1940 veio o salário mínimo. Em 1941, a Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, financiada com vinte milhões de dólares americanos, o embrião da indústria pesada brasileira, uma siderúrgica que segue de pé mais de oito décadas depois. Em 1943, a CLT consolidou as leis trabalhistas do país.
Só que a CLT não nasceu de bondade. Foi inspirada em parte na Carta del Lavoro de Mussolini, o ditador fascista italiano, e imposta por decreto, com sindicatos atrelados ao Estado. Era proteção e controle no mesmo pacote, uma combinação que define bem o método varguista de governar.
A volta pelo voto e a criação da Petrobras
Em outubro de 1945, com o mundo recém-saído de uma guerra contra o fascismo, os mesmos militares que sustentaram a ditadura depuseram Vargas, que voltou para São Borja. Veio então a prova de que o personagem era maior que o cargo: em 1950, Getúlio se elegeu presidente pelo voto direto, com quase três milhões e novecentos mil votos. O ditador deposto voltou pela porta da frente da democracia.
No segundo governo, dobrou o salário mínimo e, em 1953, criou a Petrobras, a petroleira estatal que hoje é uma das empresas mais valiosas da América Latina, avaliada em centenas de bilhões de reais, com um monopólio estatal do petróleo que duraria quarenta e quatro anos.
O cerco, o tiro e a carta-testamento
Mas o cerco se fechou rápido. O jornalista Carlos Lacerda, seu maior inimigo e principal voz da oposição, resumiu o sentimento numa frase famosa: o senhor Getúlio não devia ser candidato; se fosse, não devia ser eleito; se eleito, não devia tomar posse; se tomasse posse, não podia governar. Em agosto de 1954, um atentado contra Lacerda na rua Tonelero matou o major da Aeronáutica Rubens Vaz. O inquérito apontou como mandante Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas. Não há prova de que Getúlio ordenou o crime, mas ele saiu de dentro do palácio. Os militares exigiram a renúncia.
Dezenove dias depois do atentado, Vargas encarou a escolha: sair vivo e humilhado, como em 1945, ou não sair. Segundo a filha Alzira, ele disse na véspera que sua morte teria que representar algo superior a uma covardia. Sozinho no quarto do Catete, atirou no coração. Deixou uma carta-testamento, lida na Rádio Nacional, com a frase que virou mármore: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”
A multidão que deveria comemorar sua queda saiu às ruas para caçar seus inimigos. Lacerda fugiu do país. Historiadores como Antônio José Barbosa, da Universidade de Brasília, afirmam que aquela morte adiou o golpe militar em dez anos: em 1955, os herdeiros de Vargas venceram a eleição, e o trabalhismo governou até 1964.
O legado em números impressiona. A Petrobras vale centenas de bilhões de reais. A CSN segue operando. A CLT ainda rege a vida de dezenas de milhões de trabalhadores brasileiros, mais de oitenta anos depois. Nenhum outro político brasileiro deixou tanta estrutura em funcionamento.
O que essa história ensina
A lição da trajetória de Vargas é a do timing irreversível. Existe um momento em que a narrativa se cristaliza, e quem controla a última cena controla a história.
- Derrota não é sempre o fim: Vargas perdeu a eleição de 1930 e foi deposto em 1945, mas voltou ao poder pelo voto em 1950. A capacidade de se reinventar após quedas define carreiras longas.
- Legado se mede em estruturas, não em discursos: Petrobras, CSN, CLT e salário mínimo seguem funcionando décadas depois. O que sobrevive ao seu criador é o verdadeiro balanço de uma gestão.
- A última cena importa: em 1945, Vargas saiu vivo e perdeu a narrativa por cinco anos. Em 1954, escolheu o desfecho e ganhou a narrativa para sempre. Quando você estiver encurralado, a pergunta não é apenas como vencer, é quem vai contar a história depois.
Fontes
- Carta-testamento de Getúlio Vargas, lida na Rádio Nacional em 24 de agosto de 1954.
- Relato de Alzira Vargas sobre as últimas horas do pai no Palácio do Catete.
- Inquérito do atentado da rua Tonelero, que apontou Gregório Fortunato como mandante.
- Análise do historiador Antônio José Barbosa, da Universidade de Brasília, sobre o impacto da morte de Vargas no adiamento do golpe de 1964.
- Registros de batismo verificados nas comemorações do centenário de Vargas, que revelaram a falsificação da data de nascimento.