Chovia forte em Jataí, interior de Goiás, em abril de 1955. O comício precisou ser transferido para dentro de uma oficina mecânica, e o candidato discursava da carroceria de um caminhão para cerca de cinco mil pessoas. Do meio da plateia, um vendedor de seguros de 29 anos chamado Antônio Soares Neto, o Toniquinho, fez uma pergunta simples: se eleito, o senhor vai mudar a capital para o interior, como manda a Constituição? A resposta não estava no programa de governo. Em poucos segundos, Juscelino Kubitschek disse que sim, construiria a nova capital e transferiria a sede do governo. Toniquinho contaria depois que o candidato tomou um susto. Mas o compromisso já havia sido feito em público, diante de testemunhas, e não havia mais como escondê-lo.
Juscelino Kubitschek nasceu em Diamantina, Minas Gerais, em 1902, filho de um caixeiro-viajante e de uma professora primária, descendente de tchecos e ciganos. O pai morreu quando ele tinha menos de três anos, e a pobreza era literal: quando passou no concurso de telegrafista, em 1919, sua mãe, Dona Júlia, vendeu a única joia que possuía para pagar a viagem do filho até Belo Horizonte.
Ele trabalhava de madrugada no telégrafo e estudava medicina durante o dia. Chegou a ser reprovado em geometria nos exames preparatórios e teve de refazer a prova. Formou-se médico em 1927, especializou-se em urologia em Paris e atuou como médico militar na Revolução Constitucionalista de 1932.
O salto veio em 1940, quando o governador de Minas o nomeou prefeito de Belo Horizonte. Foi ali que JK descobriu a fórmula que usaria pelo resto da vida: recrutar talento jovem e dar liberdade total. Ele encontrou um arquiteto quase desconhecido chamado Oscar Niemeyer, que se tornaria o arquiteto brasileiro mais famoso do mundo, e encomendou o Conjunto da Pampulha, inaugurado em 1943. A igreja modernista do complexo era tão fora do padrão que o arcebispo se recusou a consagrá-la, e o templo passou 14 anos sem bênção, em parte porque Candido Portinari pintou São Francisco ao lado de um cachorro em vez de um lobo. JK não recuou. Para ele, escândalo estético era propaganda gratuita.
Governador de Minas em 1951, criou a CEMIG, companhia estatal de energia que existe até hoje e segue entre as maiores do setor elétrico brasileiro. Em 1955, lançou-se candidato à Presidência da República.
Uma eleição apertada e um contragolpe para tomar posse
A vitória veio por margem estreita: 36% contra 30% do segundo colocado, uma diferença de pouco mais de três milhões de votos. E quase não houve posse. Foi necessário um contragolpe militar liderado pelo marechal Henrique Lott para garantir que a faixa presidencial chegasse ao vencedor. Carlos Lacerda, jornalista e político que era o maior inimigo declarado de JK, passou três dias escondido dentro de uma caixa d’água seca antes de deixar o país.
Já no governo, Kubitschek lançou o Plano de Metas: trinta metas distribuídas em seis áreas, resumidas num slogan criado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, “cinquenta anos em cinco”. Brasília se tornou a meta-síntese, o projeto que amarrava todos os outros.
Brasília em 42 meses: gestão de projeto levada ao limite
O que veio depois é um dos exercícios de gestão de projeto mais extremos da história brasileira: uma capital erguida do zero, no cerrado, em 42 meses.
A estrutura de comando era enxuta e clara. Israel Pinheiro tocava a obra, Lúcio Costa assinava o plano urbanístico, Niemeyer desenhava os prédios. JK deu carta branca aos três. Não microgerenciava, cobrava prazo. Em cada canteiro havia uma tabuleta informando quando a obra tinha começado e quando terminaria, à vista de todos, operários e visitantes. O presidente visitava os canteiros pessoalmente, conversava com trabalhadores e repetia a data.
O custo era alto porque boa parte do material chegava de avião, antes que as estradas ficassem prontas. JK decidiu, deliberadamente, que o prazo valia mais do que a economia. Na noite de 21 de abril de 1960, o sino que anunciou a inauguração era o mesmo que havia tocado na execução de Tiradentes, em 1792. Brasília nascia com 140 mil habitantes.
A conta que ficou: inflação, dívida externa e os candangos
A obra custou algo estimado em um bilhão e meio de dólares da época. Para bancá-la, JK rompeu com o Fundo Monetário Internacional em 1959 e financiou parte relevante do projeto emitindo moeda. O resultado apareceu rápido: a inflação saltou de 21% para 43% ao ano, e a dívida externa cresceu cerca de 500 milhões de dólares. A espiral inflacionária aberta naquele período só seria domada 35 anos depois, com o Plano Real.
Havia também um custo humano pouco contabilizado. Os candangos, trabalhadores vindos de todo o país para levantar a capital, viviam em condições brutais. O hospital local chegou a registrar dezenas de acidentes por dia, e o número de mortos na construção nunca foi apurado oficialmente. A narrativa oficial celebrou os pioneiros e silenciou sobre o restante.
O golpe, o exílio e a ironia final
Durante seu governo, JK anistiou duas revoltas militares. Em 1964, setores dos mesmos militares que ele havia perdoado deram o golpe e cassaram seus direitos políticos por dez anos. No último discurso no Senado, ele afirmou: “Muito mais do que a mim, cassam os direitos políticos do Brasil.”
Partiu para o exílio e comentou com a filha a ironia de um democrata receber oferta de asilo justamente de ditadores como Francisco Franco e António de Oliveira Salazar. Morreu em 1976, numa rodovia, e a causa segue em disputa: a Comissão Nacional da Verdade concluiu que houve acidente, enquanto a comissão paulista apontou assassinato.
O retorno econômico de uma promessa feita no improviso
Brasília é hoje a capital de uma economia de trilhões de reais, sede dos três poderes, com mais de três milhões de habitantes na região e uma das maiores rendas per capita do país. A abertura do Centro-Oeste que a capital puxou se transformou na fronteira agrícola que faz do Brasil uma potência mundial do agronegócio.
Medida em riqueza gerada, a promessa improvisada de Jataí vale muitas vezes o que custou. O detalhe incômodo é quem pagou: a inflação recaiu sobre os governos e as famílias das décadas seguintes, não sobre quem tomou a decisão.
O que essa história ensina
- Compromisso público cria irreversibilidade. A resposta dada diante de cinco mil pessoas transformou uma ideia constitucional adormecida em obrigação política.
- Prazo visível é ferramenta de gestão. A tabuleta em cada canteiro, com data de início e de entrega, funcionava como controle social do cronograma.
- Talento com liberdade rende mais que controle. Niemeyer, Lúcio Costa e Israel Pinheiro receberam autonomia e cobrança de prazo, não interferência técnica.
- Velocidade tem preço financeiro. Priorizar o cronograma sobre o custo funcionou para entregar a obra e produziu inflação por décadas.
- Custo humano não desaparece por não ser medido. A ausência de números oficiais sobre mortos na construção é parte do balanço, não uma nota de rodapé.
A síntese possível é audácia com método. E o porém que completa a lição: quem ignora o custo financeiro da pressa não escapa da conta, apenas a transfere para quem vem depois.
Fontes
- Relatos sobre o comício de Jataí (GO), em abril de 1955, e o depoimento de Antônio Soares Neto, o Toniquinho.
- Documentação sobre o Plano de Metas e a construção de Brasília (1956 a 1960).
- Discurso de despedida de Juscelino Kubitschek no Senado Federal, após a cassação de seus direitos políticos em 1964.
- Relatório da Comissão Nacional da Verdade e conclusões da comissão da verdade do estado de São Paulo sobre a morte de JK, em 1976.
- Registros históricos sobre o Conjunto da Pampulha, a criação da CEMIG e a eleição presidencial de 1955.