Em maio de 1993, um sociólogo aposentado à força pela ditadura militar atendeu o telefone em Nova York. Do outro lado da linha, o presidente da República avisava: você já é ministro da Fazenda. Ele ainda não tinha dito sim.
O homem era Fernando Henrique Cardoso. O país que ele herdava naquele momento caminhava para uma inflação acumulada de cinco mil por cento ao ano. Cinco planos econômicos já haviam fracassado. Três ministros da Fazenda tinham caído em sete meses. A conta era simples e cruel: ou ele resolvia o problema que ninguém tinha resolvido, ou a carreira acabava ali.
Para entender o tamanho da aposta, é preciso voltar. FHC nasceu no Rio de Janeiro em 1931, filho de um general que foi deputado pelo partido de Getúlio Vargas. Formou-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo e se tornou um dos intelectuais mais respeitados da América Latina com a Teoria da Dependência, uma crítica ao funcionamento do capitalismo nos países periféricos.
Veio o golpe de 1964 e ele se exilou no Chile. Voltou em 1968, conquistou por concurso uma cátedra na USP e, menos de um ano depois, foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5, aos 38 anos. O DOPS, a polícia política da ditadura, o classificou como “elemento extremista” por mais de vinte anos.
Impedido de dar aula, fundou com outros professores cassados o CEBRAP, centro de pesquisa financiado pela Fundação Ford, uma das maiores fundações filantrópicas do mundo. Na prática, dinheiro americano bancando resistência intelectual à ditadura brasileira. Em 1976, o CEBRAP foi alvo de um atentado a bomba nunca esclarecido.
Dali, a migração para a política foi rápida: um milhão de votos como suplente de senador em 1978, cadeira no Senado em 1983, derrota para Jânio Quadros na disputa pela prefeitura de São Paulo em 1985 e a fundação do PSDB em 1988.
A virada: o crítico do capitalismo aplicando ajuste fiscal
A ligação veio de Itamar Franco, o vice que assumiu a Presidência depois do impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992. E com ela veio a virada que definiu a biografia de FHC. O crítico do capitalismo periférico passaria a aplicar um plano de estabilização com juros altos, ajuste fiscal e abertura econômica.
A frase “esqueçam o que escrevi” virou o símbolo dessa conversão. Ele nega ter dito exatamente isso, e não existe registro direto, mas a frase colou porque traduzia o que todo mundo enxergava: o teórico tinha atravessado para o lado da prática.
Antes de aceitar, FHC negociou duas condições com Itamar Franco. A primeira: carta branca para montar a própria equipe. A segunda: nada de congelamento de preços, o erro que havia sepultado os planos anteriores.
E então fez uma escolha contraintuitiva. Chamou justamente os economistas que tinham participado dos planos fracassados: Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Pedro Malan (que viria a ser ministro da Fazenda por oito anos) e Gustavo Franco (futuro presidente do Banco Central). O raciocínio era direto: eles conheciam os erros porque tinham cometido os erros.
URV: a moeda que nunca existiu em papel
A arma escolhida era uma ideia acadêmica de 1984 que tinha ficado dez anos na gaveta. A URV, Unidade Real de Valor, foi criada por medida provisória em fevereiro de 1994. Nunca existiu fisicamente. Não há uma única cédula de URV, porque ela era puramente escritural, inspirada na solução alemã para a hiperinflação de 1923.
O mecanismo era elegante. Preços, salários e contratos foram convertidos para essa unidade estável, enquanto o dinheiro velho continuava derretendo no bolso das pessoas. Quando a cabeça do brasileiro já pensava em URV, a unidade virou moeda de verdade: o Real, em julho de 1994.
Os números falam sozinhos:
- Junho de 1994: IPCA do mês em 47,43%.
- Julho de 1994, primeiro mês do Real: 6,84%.
- Dezembro de 1994: 1,71%.
Vale registrar com honestidade: FHC não inventou a URV. Arida e Lara Resende inventaram. O que o ministro fez foi proteger a equipe técnica da pressão política e traduzir o abstrato para o concreto. A propaganda do Real não falava de indexação nem de âncora nominal. Falava do preço do pãozinho, que fazia um mês que não mudava.
O efeito eleitoral foi imediato. Lula, então principal nome da oposição, liderava as pesquisas com 41% em junho e chamou o Real de “estelionato eleitoral”. FHC venceu no primeiro turno com 54,28% dos votos válidos.
As sombras: privatizações, reeleição e desemprego
No governo, FHC declarou o fim da era Vargas e privatizou cerca de 80 empresas apenas no primeiro mandato. O total arrecadado com o programa de desestatização chegou a 78,6 bilhões de dólares.
Mas essa história tem sombras, e algumas são graves. A emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC em 1998 foi aprovada com compra documentada de votos. Gravações revelaram pagamentos de 200 mil reais por deputado, e um delator afirmou depois que mais de 50 parlamentares foram comprados. O próprio FHC admitiu anos mais tarde que provavelmente houve compra, negou participação e chegou a escrever que a reeleição foi historicamente um erro.
As privatizações também deixaram feridas abertas no debate público. A Vale, hoje uma das maiores mineradoras do planeta, foi vendida por 3,3 bilhões de reais e, 25 anos depois, valia 452 bilhões.
E a estabilidade cobrou seu preço macroeconômico: desemprego médio de 17,1% ao ano, crescimento de apenas 2,3% ao ano, duas crises cambiais e uma desvalorização de 70% do real em 1999, quando a âncora cambial ruiu.
Trinta anos depois: o legado do Real
O Real completou trinta anos em 2024. É a moeda mais longeva da história republicana brasileira, tendo sobrevivido a governos de esquerda e de direita. A inflação que chegou a 47% em um único mês nunca mais voltou. FHC governou oito anos, e o tripé de estabilidade que deixou foi mantido até pelos adversários que o acusaram de estelionato eleitoral.
O que essa história ensina
A lição tem nome: é a lição do tradutor. A URV ficou dez anos engavetada não porque fosse ruim, mas porque ninguém sabia vendê-la. FHC não teve a ideia. Ele construiu a ponte. Reuniu os técnicos certos, inclusive os que já tinham falhado, blindou a equipe da interferência política e transformou engenharia monetária em preço de pãozinho de padaria.
Para qualquer empresa ou gestor, o recado é o mesmo. A ideia certa, sem proteção política interna e sem linguagem simples, morre na gaveta. A genialidade raramente está na teoria. Está na ponte entre a teoria e a realidade.
Fontes
- Série histórica do IPCA, IBGE, meses de junho a dezembro de 1994.
- Medida provisória de criação da Unidade Real de Valor (URV), fevereiro de 1994.
- Resultados oficiais da eleição presidencial de 1994, Justiça Eleitoral.
- Balanços do Programa Nacional de Desestatização e dados sobre a venda da Vale.
- Declarações públicas e escritos de Fernando Henrique Cardoso sobre a emenda da reeleição.
- Registros históricos sobre o AI-5, a aposentadoria compulsória de professores da USP e a fundação do CEBRAP.