Um menino de onze anos talhou um boneco de madeira, escondeu no sótão da casa e passou anos escrevendo bilhetes secretos para ele. Décadas depois, esse menino entenderia que havia reinventado sozinho algo que povos inteiros faziam há milênios: um objeto sagrado, um talismã. O nome dele era Carl Gustav Jung, e essa suspeita, de que a mente individual repete padrões antigos e coletivos, viraria o trabalho de uma vida inteira e, sem que ele imaginasse, um dos maiores produtos do mercado corporativo de avaliação de pessoas.
Jung nasceu em 1875, numa aldeia suíça. O pai era pastor protestante que havia perdido a fé e não conseguia admitir isso nem para si mesmo. A mãe sofria de crises e passou temporadas internada. A casa era silenciosa do jeito errado. O menino cresceu convencido de que carregava duas personalidades dentro de si: uma criança comum e um velho de outro século.
Formou-se em medicina e foi trabalhar no Burghölzli, o hospital psiquiátrico da Universidade de Zurique, um dos mais respeitados da Europa na época. Ali fez algo raro para o padrão do período: tratou pacientes psicóticos como gente com história, e não como corpos sem sentido.
Foi nesse hospital que desenvolveu o teste de associação de palavras. O método era simples e mensurável: dizia uma palavra ao paciente, cronometrava o tempo até a resposta e anotava as hesitações. Onde o paciente travava, havia alguma coisa enterrada. Jung deu a esses pontos cegos o nome de complexo. Foi essa pesquisa, com números e cronômetro, que chamou a atenção de Viena.
A aliança com Freud e o rompimento que mudou tudo
Em 1907, Jung foi conhecer Sigmund Freud, o médico austríaco criador da psicanálise e até hoje uma das figuras mais influentes da história da mente humana. Conta-se que a primeira conversa entre os dois durou cerca de treze horas seguidas.
A química tinha um componente estratégico. Freud tinha quase vinte anos a mais, era judeu e enfrentava a acusação de que a psicanálise seria uma seita de judeus vienenses. Jung era jovem, suíço, protestante e ocupava cargo em hospital universitário de prestígio. Freud o tratou como herdeiro, como príncipe da causa. Jung se tornou o primeiro presidente da associação internacional de psicanálise.
Durou seis anos. Jung nunca engoliu a ideia de que tudo, no fundo, se explicava pela sexualidade. Em 1912, publicou um livro sobre símbolos e mitologia que contrariava Freud de frente. A correspondência entre os dois azedou, ficou pessoal, e em 1913 veio o rompimento. Nunca mais se falaram.
O Livro Vermelho: a decisão de documentar o próprio colapso
A ruptura derrubou Jung. Ele perdeu o cargo na associação, largou a docência na universidade e entrou num período de anos que ele mesmo descreveu como uma confrontação com o próprio inconsciente. Tinha visões. Ouvia vozes internas com nome próprio. Temeu estar ficando psicótico e, mais do que ninguém, sabia como era um paciente psicótico, porque trabalhava com eles todos os dias.
A escolha que fez ali é o centro da história. Em vez de fugir das visões, sentou e anotou tudo. Depois copiou os textos à mão, em letra gótica, num volume encadernado em couro vermelho, e pintou as imagens que via, página por página, como um monge medieval. É o Livro Vermelho. Jung nunca o publicou em vida. A família manteve o manuscrito num cofre de banco por décadas. O material só veio a público em 2009, quase cinquenta anos depois da morte do autor.
Enquanto atravessava esse período, mantinha uma vida de aparência burguesa. Era casado com Emma Rauschenbach, herdeira de uma família rica da indústria relojoeira suíça, e o dinheiro dela sustentou boa parte da liberdade de pesquisa do marido. Manteve também, por décadas, uma relação com Toni Wolff, ex-paciente que depois virou colaboradora, com a esposa sabendo. Jung falava em integrar a sombra. A vida pessoal dele mostra que integrar não é a mesma coisa que resolver.
Tipos Psicológicos: a origem de “introvertido” e “extrovertido”
Em 1921, Jung publicou o livro que virou a ponte entre o consultório e o mundo corporativo: Tipos Psicológicos. É ali que aparecem, com definição técnica, duas palavras que hoje qualquer pessoa usa numa reunião de trabalho: introvertido e extrovertido. A energia que se volta para dentro e a que se volta para fora.
Jung acrescentou quatro funções ao modelo e criou o vocabulário que sobreviveu a ele:
- As quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e intuição.
- Persona: a máscara social, o personagem que apresentamos.
- Arquétipos: os padrões herdados e compartilhados pela humanidade.
- Sombra: tudo aquilo que a pessoa não admite ter e, por isso mesmo, enxerga nos outros.
Como a teoria virou o MBTI e um negócio global
Vinte anos depois, do outro lado do Atlântico, uma americana chamada Katharine Cook Briggs leu Tipos Psicológicos e ficou obcecada. Junto com a filha, Isabel Briggs Myers, transformou a teoria num questionário. Nenhuma das duas tinha formação em psicologia. Isabel era formada em ciência política e escrevia romances policiais.
O teste que montaram na década de 1940 é o MBTI, o indicador de tipo Myers-Briggs, aquele das quatro letras que empresas do mundo inteiro aplicam até hoje em processo seletivo e treinamento de liderança.
A empresa que administra o MBTI vende avaliações e treinamentos globalmente, com milhões de aplicações por ano, dentro de um mercado de avaliação de talentos que movimenta bilhões de dólares.
As críticas: por que o MBTI é contestado
A honestidade intelectual exige registrar o outro lado. O MBTI é duramente criticado por psicólogos acadêmicos. Pessoas refazem o teste algumas semanas depois e recebem letras diferentes, e não há evidência sólida de que o resultado preveja desempenho no trabalho.
A obra de Jung também é acusada de não ser falseável, ou seja, de não poder ser testada e refutada cientificamente, e de misturar prática clínica com misticismo. Some a isso a mancha mais séria da biografia: nos anos 1930, Jung presidiu uma sociedade internacional de psicoterapia sob influência nazista e escreveu textos distinguindo uma psicologia “germânica” de uma psicologia “judaica”, algo que depois tentou explicar e que a história não perdoou.
Jung morreu em 1961, aos 85 anos, em Küsnacht. Deixou de herança duas palavras que entraram no vocabulário de bilhões de pessoas sem que quase ninguém saiba quem é o dono.
O que essa história ensina
A lição tem nome: o que você nega em você decide por você. Aquele colega arrogante que tira você do sério, aquele sócio que você considera ganancioso demais, a intensidade da irritação costuma medir o tamanho daquilo que você não admite ter.
Para quem trabalha com gestão, ficam três leituras práticas:
- Ferramenta popular não é ferramenta validada. O MBTI virou padrão de mercado por ser simples e agradável de consumir, não por prever desempenho. Usar como conversa é uma coisa, usar como filtro de contratação é outra.
- Documentar a crise pode ser mais valioso que escondê-la. Jung transformou o período mais frágil da própria vida em matéria-prima intelectual.
- Reconhecer não é resolver. A vida pessoal do próprio Jung prova que nomear um padrão não o desativa. Mas o que não é reconhecido não é gerenciado, e quem constrói negócio duradouro é quem consegue olhar para a própria sombra sem desviar.
Fontes
- Carl Gustav Jung, Tipos Psicológicos (1921), obra em que aparecem as definições de introversão e extroversão.
- Carl Gustav Jung, O Livro Vermelho, manuscrito produzido após 1913 e publicado apenas em 2009.
- Registros da correspondência e do rompimento entre Jung e Sigmund Freud (1907 a 1913).
- Histórico do desenvolvimento do MBTI por Katharine Cook Briggs e Isabel Briggs Myers na década de 1940.
- Literatura acadêmica crítica sobre a confiabilidade teste-reteste e a validade preditiva do MBTI.