Em outubro de 1964, a Academia Sueca anunciou o nome de um escritor francês como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Ele disse não. Não por modéstia, nem por estratégia de marketing. Recusou porque aceitar seria admitir que outra pessoa tinha o direito de dizer quem ele era. Jean-Paul Sartre foi o primeiro autor a recusar voluntariamente o prêmio, e o fez com um argumento simples: um escritor não pode se deixar transformar em instituição.
A história interessa a quem estuda decisões, e não apenas a quem estuda filosofia. Porque Sartre construiu toda a sua obra em torno de uma tese que o mundo corporativo passa os dias tentando driblar: a de que quase toda frase do tipo “não tive escolha” é, no fundo, uma escolha que a pessoa não quer assinar.
Sartre nasceu em Paris, em 1905. O pai, oficial da Marinha, morreu quando ele ainda era bebê. A mãe voltou para a casa dos próprios pais, e o menino cresceu dentro da biblioteca do avô, Charles Schweitzer, professor de alemão e tio de Albert Schweitzer, o médico que anos depois ganharia o Nobel da Paz por seu hospital na África.
Aquela infância definiu o resto. Sartre não brincava na rua, lia. Décadas mais tarde, na autobiografia As Palavras, descreveria a si mesmo como uma criança que aprendeu a existir sendo aplaudida por adultos, um pequeno ator num teatro sem plateia, e chamaria aquilo de impostura. Olhando para trás, escreveu algo perturbador: a morte precoce do pai tinha sido, no fundo, a sua liberdade. Não havia herança de destino, não havia carreira traçada, não havia herdeiro de nada.
O concurso, Simone de Beauvoir e um pacto de cinquenta anos
O caminho seguinte foi o de todo bom aluno francês. Sartre entrou na École Normale Supérieure, a instituição que forma a elite intelectual do país. E aí veio o primeiro tropeço público: em 1928, foi reprovado no concurso da agregação, o exame que habilitava a dar aulas. Repetiu no ano seguinte e passou em primeiro lugar.
Em segundo lugar ficou uma jovem chamada Simone de Beauvoir, que se tornaria uma das maiores escritoras do século e autora de O Segundo Sexo, livro que fundou boa parte do feminismo moderno e já passou de milhões de exemplares vendidos no mundo. Os dois firmaram um pacto que escandalizou a França: seriam parceiros permanentes, sem casamento e sem exclusividade. O acordo durou cinquenta anos, até a morte dele.
É justo registrar que essa liberdade teve custo. A relação dos dois com alunas jovens gerou críticas sérias na época e continua sendo discutida hoje. A biografia de Sartre é, ela mesma, um teste da filosofia que ele criou.
Paris ocupada: o livro escrito sob censura
Antes da fama, Sartre foi o que qualquer professor concursado é: um funcionário. Deu aula em Le Havre, cidade portuária no norte da França, longe do centro cultural do país. Foi lá, corrigindo provas, que escreveu A Náusea, romance de 1938 sobre um homem comum que descobre, sentado num banco de praça, que nada no mundo tem sentido garantido. Vendeu razoavelmente. Ninguém imaginava o que viria depois.
Em 1939, foi convocado para o Exército. Em junho de 1940, com a queda da França, virou prisioneiro dos alemães. Passou cerca de nove meses num campo, ensinando filosofia aos outros prisioneiros, e voltou para uma Paris ocupada em 1941.
E é aqui que a história ganha peso. Numa cidade com toque de recolher, censura e delação, Sartre escreveu o livro que fundou o existencialismo moderno: O Ser e o Nada, publicado em 1943. Mais de seiscentas páginas para sustentar uma tese quase insuportável naquele contexto: o ser humano é livre. Sempre. A existência vem antes da essência, ou seja, ninguém nasce com uma função pronta, e por isso cada um responde por aquilo que faz de si mesmo.
Má-fé: a desculpa que vira cultura organizacional
O conceito mais famoso do livro é a má-fé. Não se trata de mentir para os outros. Trata-se da mentira que a pessoa conta para si mesma para não precisar assinar embaixo das próprias escolhas.
O exemplo clássico de Sartre é o garçom de café que atua de garçom: gestos exagerados, precisão mecânica, como se fosse impossível ser outra coisa. Traduzindo para o vocabulário de escritório, é o profissional que diz “eu sou assim”, “aqui funciona assim”, “não tive escolha”. Para Sartre, essas frases são confissões disfarçadas. Estamos, nas palavras dele, condenados a ser livres. Condenados porque ninguém pediu essa responsabilidade, e mesmo assim ela não sai das costas de ninguém.
Em gestão, a má-fé aparece em versões previsíveis:
- O empregado que atribui tudo ao chefe que “não deixa”.
- O empresário que diz que “o mercado obrigou” a cortar, a subir preço ou a abandonar um projeto.
- A empresa que trata uma decisão de diretoria como se fosse lei da natureza.
O filósofo da responsabilidade errou, e teve que carregar
A parte incômoda é que Sartre teve que engolir a própria filosofia. Depois da guerra, virou o intelectual mais influente do Ocidente e usou esse capital para defender a União Soviética em momentos indefensáveis. Em 1954, voltou de uma viagem a Moscou elogiando uma liberdade de crítica que não existia. Rompeu com os soviéticos após a invasão da Hungria, em 1956, mas seguiu adiante: apoiou o maoísmo e, no prefácio que escreveu em 1961 para Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, justificou a violência anticolonial de um jeito que até hoje é usado contra ele.
O homem da responsabilidade radical errou feio, publicamente, e não teve para onde correr. Pela lógica que ele mesmo criou, não havia contexto capaz de absolver a assinatura.
A conta do prêmio recusado
A recusa do Nobel, em 1964, foi coerente com tudo isso. Aceitar seria dar às suas palavras um selo de autoridade externo, e ele não queria. Há relatos de que, anos depois, sem dinheiro, Sartre tentou pedir o valor à Academia e ouviu não.
Para dimensionar o que estava em jogo, hoje o Nobel paga em torno de onze milhões de coroas suecas, mais de um milhão de dólares por laureado. Sartre morreu em abril de 1980, e cerca de cinquenta mil pessoas acompanharam seu enterro em Paris. O Ser e o Nada continua sendo impresso mais de oitenta anos depois, em dezenas de idiomas. Duas pessoas que nunca tiveram empresa nem patrimônio, ele e Beauvoir, construíram um dos catálogos mais rentáveis da editora Gallimard e um vocabulário que o mundo inteiro ainda usa.
O que essa história ensina
Primeiro: valor de marca e valor de mercado não são a mesma coisa. Sartre recusou o prêmio mais prestigioso do planeta e, ao fazê-lo, reforçou exatamente a autoridade que dizia não querer. A coerência, quando é cara, vira ativo.
Segundo, e mais útil no dia a dia: a má-fé é o maior custo invisível de qualquer organização. Enquanto a decisão for descrita como imposição externa, ninguém a revisa, ninguém aprende com ela e ninguém a corrige. “Não tive escolha” encerra a conversa antes que ela comece.
Terceiro: assumir a autoria de uma escolha dói, inclusive quando ela deu errado, como a própria trajetória política de Sartre demonstra. Mas é a única posição a partir da qual é possível mudar alguma coisa. Quem admite que escolheu pode escolher diferente amanhã. Quem se convence de que foi obrigado repetirá o mesmo erro com a consciência tranquila.
Fontes
- Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada (1943), obra em que são formulados os conceitos de existência anterior à essência e de má-fé.
- Jean-Paul Sartre, A Náusea (1938) e As Palavras, autobiografia sobre a infância na casa do avô.
- Jean-Paul Sartre, prefácio a Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon (1961).
- Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo.
- Registros da Academia Sueca e da Fundação Nobel sobre a recusa do Prêmio Nobel de Literatura de 1964 e sobre o valor atual da premiação.