Em 2001, o estouro da bolha da internet varreu do mapa quase todas as empresas de tecnologia da América Latina. Uma sobreviveu. Hoje, essa sobrevivente vale mais que a Petrobras, a gigante estatal brasileira do petróleo, e disputa o posto de empresa mais valiosa de toda a região. O nome dela é Mercado Livre. E a história dessa virada não começa em um escritório sofisticado, mas dentro de um carro, a caminho de um aeroporto.
Em 1999, Marcos Galperin, hoje apontado pela Forbes como o homem mais rico da Argentina, era apenas um argentino de vinte e poucos anos cursando MBA em Stanford, nos Estados Unidos. Ele tinha uma ideia simples: criar um site de compra e venda pela internet para a América Latina, inspirado no eBay, a empresa americana pioneira dos leilões online.
O obstáculo era o de sempre: dinheiro. Um professor de Galperin conhecia John Muse, sócio de um dos grandes fundos de investimento do Texas, e armou o encontro possível. Galperin levaria o investidor de carro até o aeroporto e teria o tempo daquele trajeto para vender a ideia. Vendeu. Muse embarcou no avião e, pouco depois, embarcou também no negócio. Com esse e outros investidores, o Mercado Livre nasceu em agosto de 1999, em uma garagem em Buenos Aires.
O timing parecia perfeito. Era o auge da febre da internet, e dinheiro jorrava para qualquer empresa com “ponto com” no nome. O problema é que, na América Latina inteira, concorrentes nasciam ao mesmo tempo. No Brasil, sites como Arremate e Lokau disputavam o mesmo espaço, queimando milhões em publicidade para ver quem crescia mais rápido. A lógica da época era essa: gastar tudo, dominar o mercado e lucrar depois.
A bolha estoura e a Argentina quebra
Em março de 2000, a bolha estourou. As ações de tecnologia despencaram no mundo inteiro, os investidores fecharam a torneira e as empresas que dependiam de dinheiro novo para pagar a conta do mês começaram a morrer uma atrás da outra.
Como se não bastasse, em 2001 a Argentina mergulhou na pior crise econômica de sua história, com o país quebrado e cinco presidentes em duas semanas. O quadro do Mercado Livre naquele momento era desanimador: uma empresa argentina, sem lucro, em um setor em colapso, dentro de um país em colapso.
Caixa em vez de crescimento: a decisão que definiu tudo
Galperin fez o oposto do que a época pregava. Cortou gastos de forma brutal, segurou o caixa e focou em fazer o negócio se sustentar, em vez de crescer a qualquer custo. Enquanto os concorrentes torravam o que tinham em marketing, o Mercado Livre economizava para atravessar o inverno.
Em 2001 veio o movimento que mudou o jogo. O eBay, o gigante americano do comércio eletrônico, comprou uma fatia de cerca de vinte por cento do Mercado Livre e o escolheu como seu parceiro exclusivo na América Latina. Não era apenas dinheiro: era um selo de sobrevivência, concedido em um momento em que ninguém apostava um centavo na região.
Nos anos seguintes, os concorrentes foram sumindo ou sendo absorvidos. Em 2005, o Mercado Livre comprou operações de rivais em vários países, incluindo o Arremate no Brasil. Quando a poeira baixou, restava basicamente um jogador de pé.
Do site de leilões ao ecossistema: Mercado Pago, Mercado Envios e a Nasdaq
O Brasil virou o coração da empresa. Hoje, mais da metade da receita do Mercado Livre vem do mercado brasileiro, e, para grande parte dos brasileiros, a caixa amarela na porta de casa é a própria cara do comércio eletrônico.
Ao longo do caminho, a companhia fez algo que poucas plataformas fizeram: construiu a própria infraestrutura. Criou o Mercado Pago, em uma época em que pagar online na América Latina era um pesadelo, e depois o Mercado Envios, montando uma rede logística própria com centros de distribuição e até aviões. O que começou como um site de classificados virou um ecossistema de comércio, pagamento e crédito.
O clímax dessa trajetória tem data: 10 de agosto de 2007, quando o Mercado Livre abriu capital na Nasdaq, a bolsa de tecnologia americana, tornando-se a primeira empresa de tecnologia da América Latina a chegar lá. Depois veio a prova final. Quando o acordo com o eBay terminou, o próprio eBay tentou competir na região. Perdeu. A Amazon, a gigante americana fundada por Jeff Bezos, entrou no Brasil com força. E o Mercado Livre seguiu na liderança, jogando em casa.
As sombras da trajetória
Nem tudo é troféu nessa história. A empresa passou anos alternando lucro e prejuízo, porque investir em logística e frete grátis custa caro. Até hoje enfrenta disputas trabalhistas ligadas aos motoristas e entregadores que operam como parceiros, uma tensão que atravessa todo o setor de aplicativos.
O próprio Galperin virou alvo de polêmica na Argentina quando se mudou para o Uruguai, em 2020, em meio ao debate sobre impostos em seu país. Para muitos argentinos, o maior empreendedor da história recente do país simplesmente foi embora.
Vale lembrar também o destino de uma das grandes rivais brasileiras do setor. A Americanas, dona de um dos maiores e-commerces do país, desabou em 2023 com a revelação de uma fraude contábil bilionária, mais um capítulo da guerra do varejo online que o Mercado Livre atravessou de pé.
O desfecho financeiro dá a dimensão da coisa. O Mercado Livre vale hoje na casa dos cem bilhões de dólares na bolsa americana, mais que a Petrobras, e disputa o título de empresa mais valiosa da América Latina. A garagem de Buenos Aires virou uma operação com dezenas de milhares de funcionários em quase vinte países. E Marcos Galperin, o rapaz do carro a caminho do aeroporto, acumula uma fortuna de vários bilhões de dólares.
O que essa história ensina
O insight fica claro quando se olha para 2001: em uma crise, caixa vale mais que crescimento. Quem sobrevive ao inverno herda o mercado inteiro dos que morreram tentando crescer. Algumas lições práticas dessa trajetória:
- Disciplina financeira vence euforia: enquanto os rivais queimavam milhões em publicidade, o Mercado Livre cortou gastos e priorizou a sustentabilidade do negócio.
- Sobreviver pode ser a melhor estratégia: a empresa não venceu por ser a mais agressiva, venceu por ser a última de pé, e então consolidou o mercado comprando os rivais enfraquecidos.
- Parcerias certas mudam o jogo: o investimento do eBay em 2001 funcionou como um selo de confiança quando ninguém acreditava na região.
- Infraestrutura própria cria vantagem duradoura: Mercado Pago e Mercado Envios transformaram um site de classificados em um ecossistema que nem eBay nem Amazon conseguiram desbancar na região.
- Construir leva tempo: foram mais de vinte anos erguendo o que ninguém mais podia erguer, com prejuízos, crises e polêmicas no caminho.
Fontes
- Histórico corporativo do Mercado Livre, incluindo a fundação em 1999 em Buenos Aires e a abertura de capital na Nasdaq em 10 de agosto de 2007.
- Registros públicos sobre o investimento do eBay no Mercado Livre em 2001 e a aquisição de operações de rivais, como o Arremate, em 2005.
- Forbes, ranking de bilionários, que aponta Marcos Galperin como o homem mais rico da Argentina.
- Cotações de mercado na bolsa americana, que situam o valor do Mercado Livre na casa dos cem bilhões de dólares, acima da Petrobras.
- Cobertura da imprensa sobre a crise argentina de 2001, a mudança de Galperin para o Uruguai em 2020 e a fraude contábil da Americanas revelada em 2023.