Por alguns dias em 2016, o posto de homem mais rico do mundo não pertencia a Bill Gates, fundador da Microsoft e dono de uma das maiores fortunas do planeta, nem a qualquer outro magnata da tecnologia. Pertencia a um espanhol de 80 anos que vendia roupa, que nunca deu uma entrevista de verdade e que, até os 63 anos, não tinha sequer uma foto publicada na imprensa. O nome dele é Amancio Ortega, fundador da Zara, e a trajetória que o levou até lá é uma das mais improváveis, e mais estudadas, da história dos negócios.
Ortega nasceu em 1936, numa vila pobre do norte da Espanha, filho de um ferroviário. A família mal tinha o que comer. Ainda adolescente, ele largou a escola e foi trabalhar como entregador numa camisaria da cidade de La Coruña. Depois, virou balconista numa loja de tecidos. Foi ali, atrás do balcão, que ele percebeu algo que mudaria a indústria da moda inteira: entre o tecido sair da fábrica e a roupa chegar à mão do cliente, o preço se multiplicava várias vezes. Cada intermediário no caminho ficava com uma fatia. E quem decidia o que seria vendido não era o cliente, era um estilista, meses antes, apostando no escuro.
Nos anos 60, Ortega começou por conta própria, costurando roupões e camisolas com a família, em casa, e vendendo diretamente para lojas. Em 1975, abriu a primeira loja própria, em La Coruña. Ele queria batizá-la de Zorba, em homenagem ao filme Zorba, o Grego, mas o nome já estava registrado por um bar próximo. Como as letras do letreiro já haviam sido encomendadas, ele rearranjou o que dava com elas. Saiu Zara.
O modelo Zara: uma máquina de logística disfarçada de loja de roupa
A Zara nunca foi uma marca de moda no sentido tradicional. Era, desde o início, uma operação de logística disfarçada de loja de roupa. Enquanto a indústria inteira trabalhava com duas coleções por ano, desenhadas com seis meses ou mais de antecedência, Ortega montou um sistema para fazer o caminho contrário: observar o que o cliente estava comprando hoje e colocar aquilo na loja em duas ou três semanas.
Na prática, o sistema funcionava sobre três pilares:
- Informação em tempo quase real: os gerentes de loja reportavam continuamente o que saía das prateleiras e o que encalhava.
- Produção próxima da sede: boa parte das peças era fabricada na Espanha e em Portugal, para responder rápido, numa época em que os concorrentes migravam toda a produção para a Ásia em busca de custo baixo.
- Distribuição com hora marcada: os caminhões saíam do centro de distribuição em horários fixos, duas vezes por semana, para cada loja do mundo.
Enquanto os rivais apostavam no gênio criativo de estilistas, Ortega apostava em caminhão, estoque e informação. O negócio dele nunca foi roupa. Foi velocidade.
Escassez planejada e publicidade zero: o marketing invisível da Zara
O efeito desse sistema sobre o cliente foi cuidadosamente calculado. Como a roupa chega em lotes pequenos e desaparece rápido, quem gosta de uma peça compra na hora, porque na semana seguinte ela provavelmente não estará mais lá. E o mesmo cliente volta à loja toda semana para ver o que chegou. A Zara transformou a loja de roupa em algo que se visita como uma banca de jornal.
E fez isso gastando praticamente nada em publicidade. Enquanto as concorrentes torravam fortunas em campanhas, Ortega direcionava esse dinheiro para comprar os melhores pontos comerciais das cidades. A lógica era simples: a vitrine na rua mais cara era o anúncio.
Inditex e o bilionário que ninguém conhecia
Em 1985, Ortega criou a Inditex, a holding que passou a agrupar a Zara e, depois, outras marcas de varejo de moda voltadas a públicos diferentes, como Bershka, Pull and Bear, Massimo Dutti e Stradivarius. Em 2001, a empresa abriu capital na bolsa, e foi somente aí, por exigência do mercado, que Ortega autorizou a publicação da primeira foto oficial dele. O homem que vestia milhões de pessoas era, até então, um rosto desconhecido.
A discrição não era pose. Ortega almoçava no refeitório com os funcionários, vestia roupas simples que nem eram da própria marca e recusava sistematicamente entrevistas, prêmios e eventos. A tese dele era direta: quem tem que aparecer é a loja.
O lado sombrio: trabalho análogo à escravidão no Brasil e a crítica ambiental
Essa máquina de velocidade, porém, tem um lado sombrio, e ele passou pelo Brasil. Em 2011, uma fiscalização do Ministério do Trabalho encontrou oficinas de costura em São Paulo produzindo peças para a Zara com trabalhadores bolivianos em condições análogas à escravidão: jornadas absurdas, dívidas com o empregador e gente morando no próprio local de trabalho. As oficinas pertenciam a fornecedores terceirizados, mas a responsabilidade sobre a cadeia recaiu sobre a marca, que foi autuada e teve que assinar compromissos de monitoramento.
É o limite do modelo: quando o sistema inteiro é desenhado para ser rápido e barato, a pressão desce pela cadeia produtiva até esmagar quem está na ponta. Soma-se a isso a crítica ambiental que o fast fashion inteiro carrega. Produzir roupa em ciclo semanal significa produzir, e descartar, numa escala que o planeta sente.
O tamanho do império: centenas de bilhões construídos sobre camisetas
Mesmo com as controvérsias, o desfecho financeiro dessa história é gigantesco. A Inditex é hoje a maior varejista de moda do mundo, com milhares de lojas em dezenas de países e valor de mercado na casa das centenas de bilhões de reais, valendo mais que qualquer concorrente do setor.
Amancio Ortega, o ex-entregador de camisas, acumulou uma fortuna que ultrapassa os cem bilhões de dólares, uma das maiores da Europa, com boa parte dela reinvestida em imóveis pelo mundo por meio da holding pessoal dele. E chegou, em 2016, a ultrapassar Bill Gates no topo da lista dos mais ricos do planeta. Tudo isso vendendo camiseta.
O que essa história ensina
A trajetória de Ortega deixa lições que valem para qualquer negócio, de qualquer tamanho:
- Não tente adivinhar, construa para reagir. Ortega nunca tentou prever a moda. Ele montou o sistema mais rápido do mundo para responder a ela, enquanto todos os outros apostavam em palpites feitos com meses de antecedência.
- A vantagem pode estar no bastidor. O diferencial da Zara não era design, era logística, estoque e informação fluindo da loja para a fábrica.
- Escassez gera urgência. Lotes pequenos que somem rápido transformaram clientes em visitantes semanais, sem um centavo de publicidade tradicional.
- Velocidade tem custo. O caso das oficinas em São Paulo mostra que um modelo desenhado para ser rápido e barato precisa de vigilância constante sobre a cadeia de fornecedores, ou a conta chega para os mais vulneráveis.
- O produto pode não ser o que parece. No papel, Ortega vendia roupa. Na prática, vendia velocidade. Entender qual é o verdadeiro negócio por trás do produto é, muitas vezes, o que separa o líder de mercado do resto.
Fontes
- Informações públicas e institucionais da Inditex, incluindo o histórico da fundação da holding em 1985 e da abertura de capital em 2001.
- Registros da fiscalização do Ministério do Trabalho em oficinas de costura em São Paulo, em 2011, amplamente noticiada pela imprensa brasileira.
- Rankings internacionais de bilionários referentes a 2016, quando Amancio Ortega ultrapassou Bill Gates.
- Biografia pública de Amancio Ortega e cobertura jornalística sobre a história da Zara e do modelo fast fashion.