Em 1941, um psiquiatra judeu de Viena recebeu o documento que praticamente garantia sua vida: um visto de entrada nos Estados Unidos. Ele o deixou sobre a mesa até que o prazo expirasse. O visto valia apenas para ele, e seus pais ficariam para trás. A decisão custou quatro campos de concentração, a família inteira e três anos de cativeiro. Também produziu um dos livros mais vendidos do século XX e o vocabulário que sustenta boa parte da indústria de gestão contemporânea.
Viktor Frankl nasceu em Viena em 1905, na mesma cidade e quase no mesmo período em que Sigmund Freud, o médico que inventou a psicanálise e reorganizou a forma como o Ocidente pensa sobre a mente, vivia seu auge intelectual. Aos 16 anos, Frankl começou a se corresponder com Freud por carta. Não era um admirador pedindo autógrafo: enviou um pequeno artigo de sua autoria. Freud gostou o bastante para encaminhar o texto a uma revista de psicanálise, que o publicou quando o autor ainda era estudante.
Poucos anos depois, Frankl se afastou de Freud e se aproximou de Alfred Adler, o outro grande nome da psicologia vienense, que havia rompido com a psicanálise para fundar a chamada psicologia individual. Em seguida, afastou-se também de Adler. O motivo foi o mesmo nos dois casos. Frankl não aceitava que o comportamento humano se explicasse apenas por prazer reprimido, na chave freudiana, ou apenas por busca de poder, na chave adleriana. Faltava alguma coisa no diagnóstico, e essa coisa, para ele, era o sentido.
Nos anos 1930, já formado em medicina, Frankl trabalhou no maior hospital psiquiátrico de Viena, em um setor dedicado a mulheres com tendência suicida. Milhares de pacientes passaram por suas mãos. Depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em 1938, assumiu a neurologia do Hospital Rothschild, o único de Viena que ainda podia atender pacientes judeus. Ali, ele e outros médicos alteravam diagnósticos psiquiátricos para retirar pacientes da lista do programa de eutanásia do regime. Era falsificação de prontuário usada como método para salvar vidas.
A decisão de 1941: o visto que ele deixou vencer
Foi nesse contexto que chegou o visto americano. Frankl tinha um manuscrito guardado, um livro que apresentava sua própria ideia de terapia, e uma carreira inteira à frente caso emigrasse. Mas o documento era individual. Ele deixou o prazo expirar e permaneceu em Viena com os pais.
Em 1942, a família foi deportada. Frankl passou por Theresienstadt, por Auschwitz e depois por dois campos ligados a Dachau, onde trabalhou na construção de uma ferrovia. Seu pai morreu em Theresienstadt. Sua mãe foi assassinada em Auschwitz. Sua esposa, Tilly, com quem havia se casado pouco antes da deportação, morreu em Bergen-Belsen. O irmão também não sobreviveu. De uma família inteira, restaram ele e uma irmã que havia emigrado para a Austrália.
A observação clínica feita de dentro do campo
Não é necessário descrever o horror em detalhe. O que importa para esta história é outro ponto: o que aquele psiquiatra observou enquanto era, ele próprio, prisioneiro. Frankl passou os anos de cativeiro executando mentalmente o mesmo trabalho que fazia em consultório. Reparava em quem resistia e em quem desistia.
Sua conclusão não tinha relação com força física nem com o estado de saúde na chegada. Os que resistiam por mais tempo, na observação dele, eram os que tinham algo esperando do lado de fora. Um trabalho inacabado. Uma pessoa. Um livro para terminar.
Ele tinha o livro. O manuscrito que costurou no forro do casaco foi confiscado na chegada a Auschwitz. Nos meses seguintes, doente de tifo, começou a reescrever o texto em pedaços de papel roubados, em taquigrafia, palavras soltas anotadas para manter a lucidez. Reconstruir aquela obra virou o motivo dele para continuar.
Logoterapia: a tese que virou linguagem corporativa
Libertado em abril de 1945, Frankl voltou a Viena e descobriu, uma morte por vez, que não tinha mais família. Em 1946, em nove dias, ditou um relato sobre a experiência nos campos. Queria publicá-lo como anônimo, e apenas a insistência de amigos o convenceu a assinar. O livro saiu em alemão e vendeu pouco. Só em 1959 chegou aos Estados Unidos, com o título que ficaria conhecido no Brasil como Em Busca de Sentido.
O método que ele desenvolveu chama-se logoterapia, de logos, palavra grega para sentido. A tese central é simples e desconfortável: o ser humano não é movido principalmente por prazer nem por poder, mas pela necessidade de que a própria vida signifique alguma coisa. E, quando não é possível mudar a situação, ainda resta escolher a atitude diante dela. Frankl chamava isso de a última das liberdades humanas.
A obra tem críticos sérios, e é honesto registrar. Pesquisadores apontaram que Frankl passou poucos dias em Auschwitz e a maior parte do cativeiro em campos de trabalho, o que gerou disputa sobre como o livro foi lido. Sobreviventes o criticaram por recusar a ideia de culpa coletiva dos austríacos e por aceitar honrarias na Áustria do pós-guerra. E há a objeção mais dura: a de que a tese pode sugerir que quem morreu não tinha sentido suficiente. Frankl rejeitou essa leitura a vida inteira, insistindo que a sobrevivência dependeu, acima de tudo, de sorte.
Os números de um best-seller improvável
Frankl viveu mais de cinquenta anos após a libertação. Casou-se novamente, tornou-se professor em Viena, deu aulas como convidado em universidades americanas, recebeu dezenas de doutorados honorários e escreveu quase quarenta livros. Aos 67 anos, tirou brevê de piloto. Morreu em 1997, aos 92.
- Em Busca de Sentido ultrapassou dez milhões de cópias vendidas.
- Foi traduzido para mais de cinquenta idiomas.
- Em pesquisa da Biblioteca do Congresso americano, no início dos anos 1990, apareceu entre os livros mais influentes na vida dos leitores dos Estados Unidos.
- Institutos de logoterapia operam hoje em dezenas de países.
O detalhe economicamente relevante: o vocabulário de “propósito” que sustenta boa parte da indústria de gestão e de bem-estar, um mercado bilionário, nasceu em grande medida ali. Discursos de missão corporativa, programas de engajamento e literatura de liderança tomaram emprestada, muitas vezes sem crédito, uma tese formulada nas condições mais extremas possíveis.
O que essa história ensina
Frankl gostava de repetir uma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: quem tem um porquê para viver aguenta quase qualquer como. A distinção prática é essa.
Propósito não é motivação. Motivação é humor, e humor acaba na terça-feira de manhã. Propósito é o que sustenta a rotina depois que a empolgação evaporou, o que faz alguém continuar em um projeto difícil, em uma empresa recém-fundada, em uma carreira que ainda não deu retorno financeiro. Quem não consegue responder por que faz o que faz tende a parar no primeiro inverno.
Há uma segunda lição, menos citada: a decisão de 1941 mostra que escolhas de sentido costumam ser caras. Frankl abriu mão da opção segura por um valor que considerava inegociável. O resultado foi tragédia pessoal e, décadas depois, uma obra de alcance global. A história não recomenda o sacrifício, mas ilustra que sentido raramente é a alternativa confortável.
Fontes
- Viktor Frankl, Em Busca de Sentido (relato ditado em 1946, publicado nos Estados Unidos em 1959).
- Registros biográficos sobre a atuação de Frankl no Hospital Rothschild de Viena e no maior hospital psiquiátrico da cidade nos anos 1930.
- Pesquisa da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos sobre livros mais influentes, início dos anos 1990.
- Literatura crítica sobre a recepção da obra de Frankl, incluindo objeções de sobreviventes e de pesquisadores do período.