Poucos papéis na história da bolsa brasileira contam uma história tão extrema quanto o do Magazine Luiza. Entre 2015 e 2020, a ação da varejista subiu mais de 43.000%. Quem colocou mil reais no fundo do poço viu o investimento se transformar em mais de 400 mil reais. Pouco tempo depois, o mesmo papel caiu mais de 90%, apagando dezenas de bilhões de reais em valor de mercado. Por trás desses números está uma das trajetórias mais fascinantes do varejo nacional: uma loja de presentes do interior paulista que apostou em tecnologia décadas antes dos concorrentes, quase quebrou na recessão, virou a queridinha do mercado e depois foi atropelada por juros altos e pela concorrência global. Entender essa montanha-russa é entender, na prática, como funciona a relação entre empresas e mercado financeiro.
Tudo começa em 1957, na cidade de Franca, no interior de São Paulo. Ali, o casal Luiza Trajano Donato e Pelegrino Donato, comerciantes locais que dariam origem a um dos maiores grupos varejistas do país, abriu uma pequena loja de presentes. O nome do negócio foi escolhido em um concurso promovido por uma rádio local, e venceu o nome da dona: Magazine Luiza. Era uma loja de cidade do interior, que vendia de porta em porta e tinha a confiança como principal produto.
Foi nessa loja que uma sobrinha da fundadora começou a trabalhar aos doze anos de idade, durante as férias escolares, para ganhar um dinheiro de presente de Natal. O nome dela: Luiza Helena Trajano, que décadas depois se tornaria uma das empresárias mais influentes do Brasil e chegaria à lista de bilionárias da revista americana Forbes. Ela passou por praticamente todas as áreas da empresa, de vendas e cobrança à gerência, até assumir o comando em 1991. Foi aí que a história mudou de escala.
Tecnologia no varejo antes da internet ser assunto no Brasil
Luiza Helena tinha uma obsessão rara no varejo brasileiro dos anos noventa: tecnologia. Já em 1992, muito antes de a internet entrar na conversa do brasileiro comum, o Magazine Luiza abriu lojas virtuais em cidades pequenas. Eram lojas sem estoque físico, onde o cliente escolhia o produto em um terminal eletrônico com a ajuda de um vendedor. Em 2000, a empresa lançou seu e-commerce, quando a maioria dos concorrentes ainda tratava a internet como modinha passageira.
A estratégia funcionou. A empresa cresceu, saiu do interior, comprou redes regionais de varejo e, em 2011, abriu capital na bolsa de valores de São Paulo, tornando-se uma companhia com ações negociadas publicamente.
A crise de 2015 e a aposta de Frederico Trajano na transformação digital
Em 2015, o Brasil mergulhou na pior recessão de sua história recente. Juros nas alturas, desemprego subindo, consumo despencando. E o varejo de eletrodomésticos, que vive de crediário, sofre antes de todo mundo. A ação do Magazine Luiza derreteu, e a empresa inteira chegou a valer menos de um bilhão de reais na bolsa. Analistas de mercado tratavam o papel como caso perdido, mais uma varejista tradicional que seria engolida pela era digital.
Foi nesse cenário que, em janeiro de 2016, Frederico Trajano, filho de Luiza Helena e executivo criado dentro da companhia, assumiu como presidente. E ele fez uma aposta que parecia suicida no meio da crise: em vez de cortar tudo e se encolher, acelerou a transformação digital. A tese cabia em uma frase: o Magazine Luiza não seria mais uma varejista com um site, e sim uma empresa digital com pontos físicos e calor humano.
As mais de setecentas lojas viraram mini centros de distribuição, permitindo entrega rápida e retirada de compras feitas online. O Luizalabs, laboratório de tecnologia da empresa, cresceu até virar um time de milhares de desenvolvedores. O site foi aberto a vendedores externos, transformando a operação em um marketplace, no modelo que consagrou a Amazon, a gigante americana do comércio eletrônico e uma das empresas mais valiosas do mundo. E a Lu, personagem virtual da marca, tornou-se uma das influenciadoras digitais mais seguidas do planeta.
O auge: 43.000% de valorização e mais de 100 bilhões de reais
O mercado percebeu o movimento. Entre o fundo do poço de 2015 e o final de 2020, a ação do Magazine Luiza subiu mais de 43.000%, uma das maiores valorizações da história da bolsa brasileira. A pandemia turbinou tudo: com o comércio físico fechado, o e-commerce explodiu, e a empresa que havia se preparado por anos colheu praticamente sozinha.
No auge, o Magazine Luiza valia mais de cem bilhões de reais na bolsa, mais do que muitos bancos. Com caixa e ações valorizadas, a companhia comprou a Netshoes, varejista online de artigos esportivos, o KaBuM!, e-commerce especializado em eletrônicos e games, e dezenas de startups. Luiza Helena Trajano entrou na lista de bilionárias da Forbes, chegou a ser apontada como a mulher mais rica do Brasil e, em 2021, entrou na lista das cem pessoas mais influentes do mundo da revista Time, uma das publicações mais tradicionais dos Estados Unidos.
A queda: juros altos, concorrência asiática e a ação em queda de 90%
A partir do final de 2021, o cenário virou completamente. A inflação disparou e os juros no Brasil foram a quase 14% ao ano. Juro alto é veneno duplo para uma varejista: encarece o crediário do cliente e derruba o valor que o mercado está disposto a pagar por empresas de crescimento. Ao mesmo tempo, gigantes asiáticas como a Shopee e a Shein, plataformas de comércio eletrônico que movimentam bilhões vendendo a preços baixos, invadiram o Brasil, e a Amazon acelerou sua operação por aqui.
A empresa passou a acumular prejuízos e precisou captar dinheiro novo, diluindo acionistas. A ação caiu mais de 90% em relação ao topo, e quem comprou na euforia de 2020 viu o investimento virar pó. A lição é dura: a transformação digital era real, mas o preço que o mercado pagava por ela embutia uma perfeição que nenhuma empresa entrega para sempre.
Hoje, o Magazine Luiza segue como uma das maiores varejistas do país, com mais de mil lojas e dezenas de milhões de clientes, mas vale na bolsa uma fração pequena do que valeu no auge. Luiza Helena Trajano continua entre as empresárias mais influentes do Brasil, à frente do grupo Mulheres do Brasil, que reúne dezenas de milhares de participantes.
O que essa história ensina
A trajetória do Magalu deixa duas lições que não se anulam:
- Quem se transforma antes da crise colhe quando a crise chega. Foi a aposta digital feita no pior momento, quando cortar custos parecia o único caminho, que salvou a empresa e a colocou anos à frente dos concorrentes quando a pandemia fechou o comércio físico.
- Valor de mercado não é a empresa, é o humor do mercado sobre a empresa. A mesma companhia, com as mesmas lojas e a mesma tecnologia, valeu cem bilhões de reais e, poucos anos depois, dez por cento disso. Quem investe precisa separar a qualidade do negócio do preço que se paga por ele.
No fim, a história do Magazine Luiza é um lembrete de que impérios empresariais sobem e descem não apenas pelo que fazem, mas também pelo quanto o mercado acredita, em cada momento, que eles podem fazer.
Fontes
- Histórico de cotações do Magazine Luiza (MGLU3) na bolsa de valores de São paulo.
- Comunicados e relatórios oficiais do Magazine Luiza sobre sua estratégia de transformação digital e aquisições.
- Lista de bilionários da revista Forbes.
- Lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time (edição de 2021).