Ele assumiu o comando da empresa no dia primeiro de janeiro de 2023. Nove dias depois, renunciou. E, ao sair, revelou ao mercado um rombo de R$ 20 bilhões escondido no balanço de uma das companhias mais tradicionais do país. A empresa era a Americanas, gigante do varejo brasileiro que chegou a valer mais de R$ 100 bilhões na bolsa. Para entender o tamanho da queda, é preciso entender o tamanho da história.
A Lojas Americanas nasceu em 1929, em Niterói, no Rio de Janeiro, fundada por um grupo de jovens estrangeiros, americanos e um austríaco, que queriam replicar no Brasil o modelo das lojas de preço baixo que faziam sucesso nos Estados Unidos. A proposta era direta: vender de tudo um pouco, barato, para todo mundo.
Deu certo. A rede cresceu, virou presença obrigatória nos centros das cidades brasileiras e atravessou décadas como sinônimo de varejo popular. Era o lugar do chocolate, do brinquedo, do presente de última hora. Uma marca que fazia parte da rotina de milhões de famílias.
1982: a chegada do trio do Garantia e o método do Sonho Grande
A virada decisiva veio em 1982, quando a empresa foi comprada por três nomes que se tornariam os empresários mais celebrados do Brasil: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, o trio do Banco Garantia. São os mesmos investidores que, anos depois, criariam a AB InBev, maior cervejaria do mundo e dona de marcas como Budweiser, Skol e Brahma, e que comprariam gigantes americanas como o Burger King e a Heinz. Juntas, as fortunas do trio somam mais de R$ 100 bilhões.
A trajetória deles virou até livro. “Sonho Grande”, best-seller que formou uma geração de executivos brasileiros, contou a história de um método que a Americanas ajudou a testar. A rede foi o primeiro grande laboratório dessa filosofia de gestão: meritocracia agressiva, corte radical de custos, metas duras e bônus generosos para quem entregasse resultado.
E o método funcionou por décadas. Sob a liderança de Beto Sicupira, a Americanas se profissionalizou, cresceu, entrou cedo no comércio eletrônico com a Americanas.com e, depois, com a B2W. O auge veio na pandemia: em 2020, o grupo valia mais de R$ 100 bilhões na bolsa. Era apontado como caso de sucesso, referência de gestão e orgulho do capitalismo brasileiro.
Só que, dentro daquele balanço aparentemente impecável, havia um problema crescendo há anos.
Risco sacado: o mecanismo por trás do rombo bilionário
O mecanismo tinha um nome técnico: risco sacado. É uma operação comum no varejo, em que o banco antecipa o pagamento ao fornecedor e a empresa passa a dever ao banco. A operação em si não é ilegal. O problema estava em como a Americanas registrava essas transações.
Em vez de aparecerem como dívida bancária, as operações eram contabilizadas de um jeito que fazia a empresa parecer muito menos endividada e muito mais lucrativa do que realmente era. Ano após ano, a distorção só crescia. E o mais impressionante: tudo isso acontecia em uma companhia auditada por uma das maiores firmas de auditoria do mundo, com conselho de administração de primeira linha e três dos empresários mais respeitados do país como acionistas de referência.
Sergio Rial e os nove dias que mudaram tudo
Até que chegou Sergio Rial. Ele era um dos executivos mais respeitados do Brasil, havia comandado o Santander no país e foi contratado justamente para liderar uma nova fase da Americanas. Assumiu no dia primeiro de janeiro de 2023.
Em poucos dias mergulhando nos números, encontrou o que ninguém havia reportado. No dia 11 de janeiro de 2023, Rial renunciou ao cargo, e a empresa publicou um fato relevante informando “inconsistências contábeis” de cerca de R$ 20 bilhões.
O mercado reagiu no dia seguinte. A ação desabou mais de 75% em um único pregão. Bilhões de reais em valor de mercado evaporaram em horas. Bancos correram para bloquear recursos, fornecedores entraram em pânico e, em 19 de janeiro de 2023, a Americanas entrou em recuperação judicial com dívidas declaradas na casa dos R$ 43 bilhões, uma das maiores da história do Brasil.
Da inconsistência à fraude: investigações, prisão e o custo da destruição
E a história ainda ficaria pior. Investigações internas concluíram, depois, que não se tratava de erro técnico, e sim de fraude. O rombo real passava de R$ 25 bilhões, construído ao longo de anos para inflar resultados. Resultados que, vale lembrar, definiam os bônus dos executivos.
A Polícia Federal e a CVM, o órgão que fiscaliza o mercado de capitais brasileiro, abriram investigações. Ex-executivos foram indiciados, e o ex-presidente da companhia, que a comandou por quase duas décadas, chegou a ser preso em 2024. O trio de acionistas de referência afirmou que nunca soube da fraude e, para viabilizar a sobrevivência da empresa, aceitou injetar cerca de R$ 12 bilhões no plano de recuperação.
A Americanas segue viva, operando milhares de lojas e tentando se reerguer dentro da recuperação judicial. Mas os números contam o tamanho da destruição:
- Uma empresa que valeu mais de R$ 100 bilhões em 2020 passou a valer poucos bilhões na bolsa, menos de 5% do auge.
- Acionistas minoritários, fundos de pensão e pequenos investidores carregaram o prejuízo.
- A reputação do trio mais celebrado do capitalismo brasileiro sofreu o maior abalo da sua história.
O que essa história ensina
A lição da Americanas é desconfortável justamente porque a empresa não era amadora. Era o oposto disso: auditoria de elite, conselho de elite, controladores de elite. E, ainda assim, a fraude passou por todos.
O caso expõe uma falha estrutural nos incentivos corporativos. Quando o bônus depende da meta e ninguém verifica de verdade como a meta é atingida, o mesmo incentivo que constrói impérios pode fabricar fraudes. A cultura de resultado, celebrada como pilar do método que transformou empresas brasileiras em gigantes globais, mostrou seu lado sombrio quando desacompanhada de mecanismos reais de controle.
Para quem lidera, investe ou trabalha em qualquer empresa, o recado é claro: cultura de resultado sem cultura de controle não é gestão, é uma aposta. E, mais cedo ou mais tarde, a conta chega. Na Americanas, ela chegou na forma de um rombo bilionário, uma recuperação judicial histórica e a destruição de valor para milhares de investidores que confiaram em um balanço que parecia impecável.
Fontes
- Fato relevante publicado pela Americanas S.A. em 11 de janeiro de 2023, informando inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões.
- Pedido de recuperação judicial da Americanas, protocolado em 19 de janeiro de 2023, com dívidas declaradas na casa dos R$ 43 bilhões.
- Conclusões das investigações internas da companhia sobre a natureza fraudulenta das operações de risco sacado.
- Investigações conduzidas pela Polícia Federal e pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
- Livro “Sonho Grande”, sobre a trajetória de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira.