Uma verdade inconveniente: a Operação Lava Jato deixou claro que, por muito tempo, roubar fez parte do modelo de negócios de uma parcela considerável do alto empresariado brasileiro.
Estima-se que as empresas percam 8% de seu faturamento em fraudes dos mais diversos tipos, sempre protagonizadas pelos próprios funcionários ou terceirizados, segundo a consultoria de gestão Hands On Solutions. Tudo começa com pequenos delitos, como superfaturar 2 reais em um recibo de táxi, e vai até os mais sofisticados, como inflar balanços para esconder prejuízos e garantir bônus milionários. Normalmente, as empresas tentam lidar com esse tipo de roubo com a maior discrição possível.
Trata-se de uma doença que vai comendo a produtividade das companhias brasileiras aos pouquinhos, e pouca gente está disposta a falar abertamente sobre ela. Com a Lava Jato, essa atitude começa a mudar. “Muitas empresas nos contrataram para saber o que a Polícia Federal encontraria se fizesse uma batida surpresa.” Os empresários passaram a reconhecer outra verdade inconveniente: não têm a menor ideia do que acontece dentro de suas empresas.
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Sem spam. Cancele quando quiser.Apenas no ano passado, mais de uma dezena de fraudes corporativas se tornou pública no país. Uma das maiores aconteceu na varejista eletrônica CNova, que era dona das lojas online da Casas Bahia e do Ponto Frio e foi fundida no Brasil, no fim do ano passado, com a Via Varejo, dona das lojas físicas das mesmas marcas. Em julho de 2015, um funcionário da área comercial fazia uma revisão dos estoques quando notou que algumas mercadorias em perfeito estado estavam classificadas como quebradas.
Uma mesma venda chegou a ser computada mais de uma vez, o que inflava artificialmente os resultados. Para calcular o tamanho da fraude e seus impactos no balanço da empresa, foram necessários mais seis meses de investigação na contabilidade. O Grupo Pão de Açúcar, controlador da empresa, concluiu que a CNova havia perdido, entre mercadorias, ajustes de estoque e mudanças contábeis, 400 milhões de reais em patrimônio.
Há 70 maneiras de roubar uma empresa só nas áreas de pagamento e compras, segundo os especialistas.
O chefe de segurança fez uma blitz surpresa em um dos centros de distribuição de uma empresa e flagrou centenas de produtos novos, falsamente classificados como defeituosos, sendo retirados do local sem nota fiscal. O Hospital Albert Einstein, de São Paulo, recebeu em maio denúncias anônimas que indicavam que três médicos da área de cardiologia favoreciam uma empresa na hora de comprar equipamentos. Ao analisar e-mails dos médicos, o hospital descobriu que eles recebiam presentes da empresa. O Einstein, então, levou o caso à polícia, que investiga se os médicos fizeram procedimentos desnecessários apenas para usar os equipamentos vendidos pela empresa.
Só em 2016, dez empresas disseram ter descoberto fraudes. O prejuízo foi de 3 bilhões de reais.
A empresa de energia elétrica Energisa desvendou um esquema que envolvia mais de 100 pessoas em Mato Grosso do Sul. Funcionários recebiam propina para reduzir a conta de alguns consumidores. A companhia acionou a polícia e fez duas prisões em flagrante. Também mudou a forma de registrar o consumo de seus clientes: agora os relógios de luz têm de ser fotografados a cada leitura, assim os funcionários não podem registrar o que bem entendem.
O prejuízo para as dez empresas que admitiram ter sido roubadas por funcionários no ano de 2016 chegou a 3 bilhões de reais. O número real, naturalmente, é bem maior. “As empresas preferem discrição ao lidar com esse assunto, para não expor suas fragilidades. São poucos os casos que se tornam públicos.”
Segundo duas dezenas de executivos de empresas, auditorias e escritórios especializados em investigar fraudes consultados pela EXAME, as fraudes são tão corriqueiras que algumas empresas chegam a incluir estimativas de perdas com roubos na previsão orçamentária. Existe mais de uma centena de maneiras de roubar uma empresa. Apenas nas áreas responsáveis por compras e pelo pagamento de despesas e fornecedores, são mais de setenta formas de desviar dinheiro. Alguns funcionários criaram até empresas de fachada para receber como se fossem fornecedores da companhia. Os pedidos de reembolso de despesas são outra tradicional fonte de irregularidades. Entre as mais comuns estão notas fiscais de gastos em motéis, restaurantes caríssimos no fim de semana e hotéis em feriados. Numa investigação comandada pelo escritório Demarest Advogados, o gerente de vendas de uma fabricante de material de construção chegou a apresentar o recibo de diárias num hotel em Copacabana, no Rio de Janeiro, em pleno Réveillon.
Estudos de consultorias no Brasil e no exterior mostram que um terço das fraudes acontece justamente como as descritas acima, ou seja, um pouquinho por dia, com o desvio de alguns produtos ou o reembolso de pequenas despesas que nada têm a ver com a companhia. Um levantamento global da consultoria Kroll mostra que 82% das empresas afirmam ter sofrido pelo menos uma fraude nos últimos 12 meses, o maior índice desde 2012, quando a pesquisa teve início. Os desvios potencialmente mais danosos para o caixa das empresas envolvem altos executivos e são feitos em aliança com fornecedores e até clientes. Segundo outra pesquisa, realizada pela KPMG, as fraudes em conluio respondem por 76% do total na América Latina, o que faz com que durem, em média, três anos. Outro levantamento, da Associação Internacional dos Investigadores de Fraude, indica que o envolvimento da cúpula causa danos quase onze vezes maiores do que fraudes cometidas pelo baixo escalão, com prejuízo médio de 703.000 dólares.
Quanto maior o número de funcionários, segundo os especialistas, mais difícil é exercer o controle em casos de conluio.
Comprando a briga
No novo ambiente criado pela Lava Jato no Brasil, ainda que a maioria das empresas prefira varrer as fraudes para baixo do tapete, está aumentando o número de companhias que decidem comprar a briga com os funcionários, fazendo investigações detalhadas e aumentando as punições (como demissões por justa causa, pedidos de ressarcimento e ações judiciais). Também cresce o número de empregados que delatam o colega infrator. “O desgaste e o custo financeiro de fazer investigações e demitir funcionários por justa causa são altos, mas têm efeito didático.” Algumas empresas criam uma linha telefônica 0800 para que os funcionários possam fazer denúncias anônimas. Se quiserem se identificar e a denúncia for confirmada, ganham bônus de um salário. De acordo com uma pesquisa da consultoria ICTS, especializada em investigar fraudes corporativas, o número de denúncias de irregularidades recebidas pelas empresas brasileiras aumentou 45% em dois anos.
O triângulo da fraude
É formado por oportunidade, motivo e atitude. A oportunidade surge nos casos em que há brechas no controle de processos das companhias, e os especialistas são unânimes em afirmar que é impossível controlar tudo. É impossível ter controle total dos processos, pois a burocracia e a lentidão rapidamente fariam a empresa parar de funcionar. Por isso é preciso monitorar as atitudes dos funcionários.
Existem “testes de integridade” na hora de avaliar executivos. Esses testes são aplicados por empresas especializadas na investigação de fraudes corporativas e geralmente usam como base um método conhecido como SCAN, desenvolvido por um chefe da polícia israelense em 1981. O teste é um questionário que alterna perguntas sobre a experiência profissional e pessoal do executivo e afirmações que podem ser aceitas ou questionadas. Por exemplo: roubar um milhão de reais do caixa é diferente de roubar dez reais, certo? O objetivo é indicar quem está mais propenso a cometer alguma irregularidade. Os motivos que levam os funcionários a tirar dinheiro da empresa em que trabalham costumam aumentar em meio a uma crise econômica. “Dificuldade financeira na família pode ser um motivador para um funcionário propenso a irregularidades.” Um funcionário chamou atenção pelo número de garrafas térmicas que levava na marmita, até a empresa descobrir que ele as enchia de tinta de impressora para revender. O número de esquemas desmascarados também aumenta na crise porque, em períodos de dificuldade, as empresas se preocupam mais em cortar gastos para tentar elevar a rentabilidade. Consultores contratados por empresas que querem implementar projetos de redução de custos dizem que encontram fraudes sem nem mesmo procurá-las.
O jeito mais eficaz de descobrir uma fraude é contar com a ajuda dos próprios funcionários. De acordo com uma pesquisa global da Associação Internacional de Investigadores de Fraudes, quase 40% dos desvios são revelados por denúncias de empregados, fornecedores e clientes. As auditorias, externas e internas, desvendam apenas cerca de 20% dos casos, e os sistemas remotos de monitoramento, menos de 5%. É mais fácil descobrir uma fraude por acidente (6% do total, de acordo com a pesquisa da associação).
Na tentativa de prevenir fraudes, alertam os especialistas, as empresas podem acabar passando do ponto. Em 2014, a companhia aérea American Airlines foi multada em 1 milhão de reais pelo tribunal do trabalho, em Brasília, por usar um detector de mentiras em testes de seleção de candidatos no Brasil. Um embate comum entre empresas e o Ministério do Trabalho é a revista de funcionários e de suas bolsas e mochilas ao entrar e sair de lojas, estoques ou fábricas.
Conclusão? Estar atento e ter um time qualificado para diminuir as falhas em todos os processos da empresa é essencial para reduzir e evitar perdas no negócio.
Fonte: Revista Exame, Google.